Rafael Bagolin
Em agosto celebramos o Dia do Advogado, mais do que homenagear uma das profissões mais fundamentais para o funcionamento da sociedade, é momento de refletir sobre o seu futuro. Em um mundo cada vez mais digitalizado, onde inovação é regra e as relações humanas e comerciais se tornam mais complexas, o papel do advogado passa por uma reinvenção silenciosa, mas profundamente significativa.
A tecnologia, que já revolucionou setores como o financeiro, a saúde e a educação, agora ressignifica a atuação jurídica. O escritório tradicional, antes repleto de papéis, carimbos e agendas físicas, dá lugar a ambientes digitais, integrados, dinâmicos e acessíveis. Ferramentas digitais, inteligência artificial, automação e novas formas de interação com clientes não são mais tendências: são realidades que definem o presente da advocacia.
Na liderança de uma startup jurídica, que desenvolve ferramentas que auxiliam o cotidiano do advogado, vejo diariamente como soluções tecnológicas têm libertado os advogados de tarefas operacionais, permitindo que se concentrem no que realmente importa: o raciocínio jurídico de alto valor, a análise crítica e a construção estratégica de argumentos.
Nos últimos anos, legaltechs brasileiras vêm se destacando ao desenvolver plataformas jurídicas completas que simplificam o dia a dia dos advogados. Essas soluções, geralmente 100% online, conectam profissionais do direito aos seus clientes de forma rápida, intuitiva e segura, especialmente aqueles que lidam com um alto volume de demandas recorrentes. Automação de tarefas, controle de prazos, gerenciamento de processos e uso de inteligência artificial para responder dúvidas jurídicas, redigir petições ou resumir documentos são apenas alguns dos recursos já disponíveis. A tecnologia torna-se, assim, o braço direito do advogado, e claro, toda essa evolução de ferramentas e máquinas, jamais irá substituir o profissional de direito.
Atividades antes manuais, como a elaboração de contratos, análise documental, diligências em fóruns e acompanhamento de prazos, são hoje realizadas por softwares especializados. Com isso, o tempo do advogado se desloca da execução para o pensamento estratégico. O profissional deixa de ser apenas um executor de tarefas jurídicas e se torna um verdadeiro consultor, com mais espaço para atuar de forma analítica, criativa e estratégica.
A inteligência artificial já é utilizada para prever decisões judiciais com base em dados históricos. Na startup que lidero, desenvolvemos rapidamente uma ferramenta para auxiliar os advogados com a questão da fraude no INSS. O que revela como as legaltechs têm velocidade e dinâmica para atuar com questões relevantes e resolver as dores jurídicas.
A relação entre advogado e cliente também foi impactada. Com o uso de videoconferências, aplicativos de mensagens e o uso da IA para auxiliar na resposta dos clientes, o atendimento torna-se mais acessível, contínuo e eficiente. Escritórios de advocacia 100% digitais já são uma realidade e têm ampliado o alcance da profissão.
Com a digitalização dos dados jurídicos, cresce também a preocupação com a segurança da informação. A confidencialidade — um dos pilares da advocacia — exige o domínio de boas práticas de cibersegurança e a conformidade com normas como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). E mais: surge um novo desafio ético. Como equilibrar o uso de tecnologias avançadas com a responsabilidade profissional? A IA é uma ferramenta poderosa, mas jamais substituirá o julgamento humano, a empatia e o senso de justiça. Cabe ao advogado moderno usar a tecnologia com responsabilidade e consciência crítica.
Diante desse cenário, o advogado do século XXI precisa desenvolver novas habilidades. Literacia digital, gestão de dados, visão estratégica de negócios e capacidade analítica tornaram-se competências essenciais. A interdisciplinaridade ganha força: profissionais que transitam entre o Direito e áreas como tecnologia, inovação, marketing e gestão estão mais preparados para os desafios que vêm pela frente. O futuro da advocacia não pertence a quem apenas conhece a lei, mas àqueles que entendem o contexto em que ela se aplica — e que sabem usar a tecnologia como aliada para torná-la ainda mais eficaz.
Neste Dia do Advogado, celebramos não apenas uma profissão essencial para a manutenção da justiça e da democracia, mas também sua capacidade de adaptação e renovação. A tecnologia não diminui o papel do advogado — ao contrário, o potencializa. O advogado moderno é, acima de tudo, um estrategista conectado ao seu tempo, que combina conhecimento jurídico com inovação, ética e propósito. Um profissional que, com o apoio da tecnologia, continuará sendo peça-chave na construção de um mundo mais justo, seguro e equilibrado.
Como advogado e líder de uma legaltech, vejo que o futuro do Direito pertence aos advogados que ousam inovar sem perder de vista o essencial: a defesa da justiça em todas as suas formas.


