Da Redação
O acordo entre Mercosul e União Europeia se tornou peça estratégica na tentativa de preservar uma ordem internacional baseada em regras, diante do avanço de potências que operam por lógica de força e unilateralismo. Muito além da redução de tarifas, o tratado transformou-se em instrumento de diversificação econômica, proteção de cadeias produtivas e reposicionamento geopolítico de dois blocos que buscam reduzir dependências críticas. Em jogo não está apenas comércio, mas a capacidade de democracias articularem respostas coordenadas em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado.
Essas foram as principais conclusões do terceiro painel do Regulation & Investment, realizado nesta segunda-feira, 2, em Frankfurt. O painel discutiu a concepção e a implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia, analisando seus impactos comerciais, regulatórios e políticos em um cenário internacional marcado por disputas de poder e pressões protecionistas. Participaram Elmar Brok, membro do Conselho Consultivo da Conferência de Segurança de Munique; Rodrigo Baena Soares, embaixador do Brasil na Alemanha; o jornalista William Waack e Deniz Alkan, diretor de Assuntos Europeus e Internacionais do governo do estado alemão do Sarre. A moderação foi de Urs Unkauf, representante extraordinário para Assuntos Externos Globais da Associação Federal Alemã de Desenvolvimento Econômico e Comércio Exterior.
No debate, William Waack afirmou que a integração entre Mercosul e União Europeia enfrenta obstáculos institucionais relevantes, sobretudo a assimetria entre a competitividade da agricultura tropical brasileira e as normas ambientais europeias. Segundo ele, essa vantagem comparativa do Brasil alimenta tensões políticas dentro do bloco europeu e dificulta a formação de consensos. O jornalista também criticou o ambiente regulatório da União Europeia, argumentando que a viabilidade do acordo esbarra em impasses internos e em medidas percebidas no Brasil como barreiras comerciais disfarçadas.
“Os europeus são campeões nas regras e normas, o que nós entendemos em grande parte como um protecionismo simples”, afirmou. Para Waack, a desconfiança entre as duas regiões ainda não foi superada e limita o alcance estratégico do tratado.
Em contraponto, Elmar Brok disse que a necessidade de acesso a minerais estratégicos e a instabilidade nas alianças tradicionais impõem uma convergência pragmática, tratando o comércio como componente inseparável da política de defesa e do desenvolvimento industrial. A urgência de diversificação de mercados, segundo ele, decorre da atuação de líderes que rejeitam o multilateralismo em favor de dinâmicas de força. “Temos que ver que o comércio é parte da política de segurança.” Ele associou o acordo à construção de uma rede entre democracias capaz de reduzir vulnerabilidades diante de pressões dos Estados Unidos, da China e da Rússia.
Para o embaixador Rodrigo Baena Soares, o tratado altera a lógica de exportação primária e abre caminho para o adensamento tecnológico da indústria sul-americana por meio da importação de bens de capital. “A ideia de que esse acordo é uma troca de carros por vacas presta um desserviço”, declarou. Ele argumentou que a redução tarifária sobre máquinas e equipamentos permitirá modernização industrial no Brasil e fortalecerá cadeias produtivas de maior complexidade.
Ao tratar dos insumos estratégicos, Deniz Alkan destacou que o controle sobre minerais críticos expõe o custo de decisões baseadas apenas em pressões protecionistas. Para ele, a dependência europeia do nióbio brasileiro comprova a dimensão concreta da interdependência produtiva. “A Alemanha tem uma incrível chance e também uma responsabilidade na União Europeia de cumprir esse acordo com a vida”, declarou Alkan. “Transformar o tratado em prática efetiva é questão de soberania industrial europeia.”
Durante a moderação, Urs Unkauf explorou a necessidade de superação das falhas diplomáticas para fortalecer a defesa dos interesses em comum. Ele defendeu maior envolvimento de estados federados e instâncias regionais na implementação do acordo, como forma de descentralizar investimentos e aproximar mercados.


