Imagine uma cafeteria. Um gestor chega atrasado, pede um café duplo, abre o laptop e começa a responder e-mails enquanto fala com o celular e pensa na reunião que está prestes a começar. Na tela, uma frase brilha na assinatura do e-mail: “Disponível a qualquer hora”. Bonito, não é? Só que não.
Ser “disponível” o tempo todo parece virtude, mas na prática é uma armadilha elegante. A boa intenção de ser colaborativo, somada ao medo de perder oportunidades, cria o vício de dizer “sim” para tudo. Projetos, convites, reuniões, demandas, ideias geniais “dos outros”. E assim, um dia de 24 horas se transforma num buffet corporativo sem fim e o prato principal costuma ser a exaustão.
O falso glamour do “ocupado”
Há uma espécie de culto moderno à agenda cheia. Gente que mede relevância pelo número de reuniões, que confunde movimento com progresso e acredita que “não parar” é sinônimo de “ser importante”. Mas há uma diferença brutal entre estar ocupado e ser produtivo. Ocupação é ruído. Produtividade é melodia. E a diferença entre as duas está em uma palavra que muita gente evita: escolha.
Dizer “sim” o tempo todo é o caminho mais rápido para perder o controle do próprio tempo. Já percebeu como as pessoas mais competentes costumam ser as mais sobrecarregadas? Isso acontece porque quanto mais você entrega, mais as pessoas pedem. E se você não souber recusar com elegância, vai acabar vivendo a agenda dos outros, não a sua.
Escolher é renunciar
Toda escolha carrega uma renúncia. Quando você diz “sim” a uma nova reunião, talvez esteja dizendo “não” a uma hora de descanso, a uma conversa com o time ou até à chance de pensar estrategicamente. Você está consciente disso?
Líderes que entendem o poder da escolha sabem que foco é um ato de coragem. Porque escolher significa assumir o desconforto de desapontar alguém. Mas é melhor desapontar um colega do que decepcionar a si mesmo por viver atolado em tarefas sem propósito. Não se trata de virar um “não-humano”, mas de perceber que cada “sim” é um investimento e bons investidores não colocam dinheiro (nem energia) em tudo que aparece.
O “não” que liberta
Há três tipos de “não” que todo líder precisa aprender a usar:
- O não estratégico: quando algo não contribui para o objetivo principal.
- O não preventivo: quando a proposta até parece boa, mas o timing é ruim.
- O não pedagógico: quando você diz “não” para ensinar aos outros que o seu tempo também tem valor.
A má notícia é que o “não” nunca é confortável. A boa é que, depois do primeiro, os próximos vêm com menos culpa e mais clareza. E quanto mais você se habitua a recusar com propósito, mais espaço cria para o essencial florescer.
Um “não” dito com respeito vale mais do que um “sim” dito com ressentimento. E, curiosamente, as pessoas tendem a respeitar mais quem tem coragem de colocar limites.
Algumas técnicas simples ajudam a preservar relações e manter o foco:
- Agradeça e reconheça: “Agradeço o convite, parece ótimo…”
- Explique brevemente o motivo: “…mas neste momento estou priorizando X.”
- Ofereça uma alternativa realista: “…posso retomar essa conversa em duas semanas.”
Saber dizer “não” não é grosseria, é maturidade. É o tipo de competência que não se aprende nas academias e não se fazem constar em currículos, mas salva carreiras e, o melhor, sanidades. Líderes que se destacam não são os que fazem tudo, são os que fazem o que importa com intenção e profundidade.
O paradoxo da escolha moderna
Curiosamente, quanto mais opções temos, mais difícil é escolher. É o paradoxo da abundância, qual seja, diante de tantas possibilidades, acabamos paralisados ou dispersos.
A sensação de estar sempre “devendo algo” vem justamente da ilusão de que é possível abraçar o mundo sem soltar nada. Mas toda escolha inteligente começa por uma pergunta simples: “O que é realmente essencial neste momento?”
Essa pergunta deveria estar colada no espelho do banheiro, na mesa de reuniões e, principalmente, na tela do celular. Ela é o antídoto contra a dispersão. E quando feita com honestidade, revela verdades incômodas, como o fato de que metade das coisas que fazemos poderiam ser simplesmente, acredite, deixadas de lado.
Observe como as microdecisões diárias moldam a sua rotina. Quer ver? Aceitar aquele café “rápido”, aquela ligação de dez minutos (que vira uma hora), aquele projeto paralelo que “não custa nada ajudar”. Cada “sim” automático rouba tempo de algo essencial. E quando você percebe, o seu dia foi sequestrado por tarefas que não têm nada a ver com os resultados que realmente importam.
Lembre-se que escolher é um exercício de autoconhecimento e a clareza de propósito é a bússola que impede você de se perder na selva corporativa do “tudo agora” ou “para ontem”.
Escolher com consciência é liderar com sabedoria
Grandes líderes não são aqueles que fazem mais, mas os que escolhem melhor. Eles não estão disponíveis o tempo todo, estão presentes quando é necessário. Eles não falam sobre prioridades, mas sim, vivem as prioridades. Eles não dizem “sim” para agradar, dizem “não” para proteger o que realmente importa e gera impacto. No fim do dia, liderança não é sobre fazer tudo. É sobre garantir que as coisas certas sejam feitas, e bem-feitas, diga-se de passagem.
Para pensar
Se o seu dia termina e você sente que trabalhou demais, mas produziu de menos, talvez não falte esforço, falte critério. Talvez o problema não seja o tempo curto, mas a agenda longa. E talvez o próximo grande avanço na sua carreira não venha de um novo projeto, e sim de uma nova postura (ou nova recusa).
Então, a pergunta que fica é:
Quantas coisas você ainda está dizendo “sim” apenas por medo de desapontar?