Sadik Sarkis
Vivemos a era do “texto demais”. Caixas de e-mail lotadas, inteligência artificial ajudando a escrever muito mais, mensagens sem fim, reuniões que poderiam ser qualquer coisa menos uma reunião.
O curioso é que ninguém quer perder tempo, mas quase todo mundo continua escrevendo e falando como se o tempo dos outros fosse infinito. A boa notícia? Ainda dá tempo de mudar. A má notícia? Isso exige disciplina.
Se comunicar com objetividade e de maneira refinada é uma adaptação à sua maneira de falar para que sua mensagem seja ouvida e, principalmente, compreendida. Assim, ao me referir a esta peculiar maneira assertiva de comunicação, que vai direto ao ponto, vou chamá-la de “objetividade refinada”, para maior fluidez ao nosso texto. Combinado? Vamos lá.
A objetividade refinada não é um dom, é um treino. E líderes que aprendem a pensar antes de falar se tornam mestres na arte mais rara do mundo moderno, qual seja, a de ser compreendido rapidamente.
O novo luxo corporativo. A atenção
A atenção virou um bem de luxo. As pessoas estão sobrecarregadas, cansadas e distraídas. A competição pela atenção do outro é tão feroz quanto a disputa por talento. E isso muda tudo. Se o seu e-mail, sua fala ou sua apresentação não capturam a atenção nos primeiros segundos, ela se perde e dificilmente volta.
Concordo com muitos autores, que tratam de comunicação assertiva, quando destacam que não basta ser bom no que se faz, é preciso saber comunicar de forma clara, rápida e relevante. Não para falar menos, mas para ser lembrado mais.
Imagine que seu leitor, ou ouvinte, só tenha 10 segundos para entender sua mensagem. O que ele levaria? Se a resposta for “nada”, é porque o essencial ainda está escondido.
O segredo está na edição mental:
• O que é realmente importante aqui?
• Por que isso importa agora?
• O que quero que o outro faça com essa informação?
Essas três perguntas são a espinha dorsal da objetividade refinada. Responder a elas antes de abrir a boca ou clicar em “enviar” muda completamente a forma como você se comunica.
O vício do detalhe desnecessário
Uma armadilha clássica do ambiente corporativo é a “síndrome do PowerPoint”, achando que quanto mais informação, melhor. Muitos se utilizam de informações demais em suas apresentações como “muletas” para se guiarem na hora da apresentação. Uma coisa é você utilizar tópicos para lhe guiar na apresentação, outra coisa é você colocar o que você vai falar no slide, como se você não tivesse domínio do conteúdo (será?).
Ocorre que informações demais só ajudam psicologicamente você e ninguém mais. Ou as pessoas prestam atenção ao que você tem a dizer ou ficam lendo o conteúdo do seu slide. Se for a segunda opção, o que você está fazendo lá na frente falando?
Entenda que o excesso de informação não esclarece, confunde. É o mesmo princípio de uma sala bagunçada, quanto mais coisa tem, mais difícil é achar o que importa. O líder que aprende a filtrar detalhes irrelevantes e destacar o essencial não está sendo superficial, está sendo estratégico. A simplicidade é a irmã madura da objetividade refinada.
Diferença entre falar muito e ser claro
Cada mensagem precisa ter uma ideia central. Uma só. Não duas, não dez. Se você quer que algo seja lembrado, dê foco. Porque a mente humana não retém excesso, retém sentido.
É como eu sempre digo, líderes eficazes não são aqueles que dizem tudo, são aqueles que dizem o que importa.
A objetividade refinada pode ser simples e aplicada a qualquer e-mail, fala ou reunião:
1. Comece com o essencial. Diga logo o ponto principal. O que está em jogo? Qual é o propósito da mensagem? Exemplo: “Precisamos redefinir as metas do trimestre para manter o ritmo de crescimento.”
2. Explique o porquê. Dê o contexto mínimo necessário. Exemplo: “A nova política de preços dos concorrentes exige ajustes imediatos.”
3. Indique o próximo passo. Feche com clareza. Exemplo: “Vamos alinhar as novas metas na reunião de sexta.”
Essa estrutura não só economiza tempo, como também elimina o drama da má comunicação, aquele que gera retrabalho, mal-entendidos e reuniões desnecessárias.
O medo de parecer simples demais
Muitos líderes resistem à objetividade refinada porque confundem simplicidade com superficialidade. Mas ser simples é o oposto de ser raso.
A simplicidade é o produto final do pensamento profundo. É o resultado de quem já fez o trabalho de organizar as ideias antes de comunicá-las. A mensagem clara nasce do esforço invisível de quem pensou com rigor e empatia. Falar de forma simples é um ato de inteligência. E, no mundo de hoje, acredite, é também um ato de respeito e generosidade.
Comunicar com objetividade refinada é uma forma de dizer: “Eu respeito o seu tempo.” E tempo, na rotina de um gestor, é mais valioso do que qualquer outra moeda. Quando alguém consegue ser direto sem ser rude, o efeito é imediato: ganha-se confiança, clareza e até simpatia.
As pessoas começam a procurar essa pessoa, não porque ela fala muito, mas porque ela resolve rápido. A clareza é o novo carisma. E o respeito, a melhor ferramenta de influência.
Ser breve não significa ser seco. O humor leve, humano e oportuno é o melhor aliado da objetividade refinada.
Uma observação espirituosa, uma analogia divertida ou uma pequena ironia bem colocada ajudam a prender a atenção e tornam a mensagem mais memorável. O humor é o “sal” da comunicação. Sem ele, até a mensagem mais nutritiva fica sem sabor.
Mas é sempre bom destacar que o humor não serve para disfarçar a falta de conteúdo, e sim para facilitar a digestão do conteúdo.
Falar menos, pensar mais
O verdadeiro exercício da objetividade refinada é mental. É aprender a pensar com foco e intenção, antes de transformar ideias em palavras.
Cada frase que você diz ou escreve é uma escolha e toda escolha comunica mais do que parece. Falar menos é dar espaço para pensar melhor. Pensar melhor é o que diferencia quem reage de quem lidera.
E se, antes de sua próxima mensagem, você fizesse uma pausa de 10 segundos para se perguntar “O que realmente preciso dizer?”, talvez percebesse que o essencial sempre foi menor do que parecia.
