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Randall Neto: quem é você no capitalismo católico?

Alguém já perguntou ao empregado se ele prefere ser chamado de colaborador, camarada, chanceler ou Capitão Kirk?
Chamar o empregado de colaborador tem como único efeito prático aplacar a consciência do dono da empresa
Chamar o empregado de colaborador tem como único efeito prático aplacar a consciência do dono da empresa - Freepik

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Já vai longe o tempo em que eu estudava o barbudão do Marx e seus modos de produção. E como, de lá pra cá, não apareceu nada melhor que o substitua a contento, vamos lá de capitalismo mesmo.
Mas o próprio capitalismo andou sendo apelidado ou eufemizado. Foi de capitalismo selvagem a capitalismo neoliberal. Por isso, do alto da minha pretensão, lanço aquilo que chamo de capitalismo católico.

Que seria o quê mesmo?

Seria a resultante de anos e anos de aplicação do capitalismo, mas capitalismo mesmo, de raiz, sabe? O capitalismo moleque, o capitalismo arte, o capitalismo rasgo a CLT e me voy, chicote na mão e calculadora na outra para subtrair as horas extras a não serem remuneradas…

Heróis e vilões

Então, como tudo na vida, o capitalismo de raiz tem o lado bom: funciona. E o lado ruim: deixa muito claro quem é herói e quem é vilão na história toda. Durma-se com um barulho desses, claro, ainda mais se der pra dormir bem, com as benesses adquiridas graças à mais valia expropriada do proletariado (século 19 feelings).

OK, tudo certo. Certo? Errado.

Por alguma razão que eu não consigo entender, é comum que os donos de empresa sejam acometidos de culpinha católica no decorrer do processo de acumulação desenfreada de capital, e aplacar a consciência de alguma forma.

De alguma forma sem o menor resultado prático, como, por exemplo, chamar o empregado de COLABORADOR.

Lunáticos

Eu não sei quem foi o gênio que inventou isso. Talvez algum lunático do RH ou um consultor qualquer, dado a fornecedor de soluções mágicas. Mas o conceito me lembra muito quando eu era pequeno e as donas de casa preferiam chamar suas empregadas domésticas de SECRETÁRIAS.

Mas o faziam com uma entonação de voz tão nojenta, que não deixava dúvida que eram quase obrigadas por medida judicial a fazer isso. Desde então, eu fico tentando entender o que existe de errado no fato de chamar de EMPREGADA, para tentar entender o que existiria hoje de errado
no fato de chamar os empregados de empregados.

O que eles são, afinal de contas?

CLT

Bom, segundo a CLT, que é quem determina, são EMPREGADOS. Ponto, fim da conversa, beleza?
Não. Alguém decidiu que os empregados não se sentem bem em serem chamados de empregados. Mas aqui cabe uma pergunta: alguém perguntou pra eles? Eu faço essa pergunta porque eu já vi a alta direção de uma empresa decidir, depois de longo e elaborado consenso, que os empregados
se sentiriam muito melhor se fossem chamados de COLABORADORES.

Por razões que nem vale a pena colocar aqui pra não te encher (mais) o saco. Mas é isso, pessoal “lá de cima” decidindo o que é melhor pra escumalha lá de baixo e pronto.

Bem-estar

Quando eu exponho esse meu ponto de vista, me vejo sendo julgado como uma pessoa que não liga para o bem estar dos trabalhadores e que não estou nem aí para como eles serão chamados, o que é 50% verdade.

Sim, pois não estou nem aí para como serão chamados, mas estou, sim, preocupado com o bem-estar deles (nosso, no caso, afinal de contas, não sou dono de meio de produção nenhum).

É que, na verdade, pouco importa.

Você pode chamar de colaborador, associado, parceiro, companheiro, camarada, chanceler ou mesmo Capitão Kirk. Não muda nada, é só um nome!

E Shakespeare, desculpa trazer você para esse papo, mas foi você quem disse: “Um nome, o que é um nome? A rosa, como quer que seja chamada, ainda assim teria sempre o mesmo cheiro…”

Perfumarias

É isso: por que ninguém se preocupa com o CHEIRO dos empregados? Por que não se aprofunda na discussão, indo até eles e perguntando se existe alguma coisa ao alcance da empresa que possa ser feito para melhorar o seu “cheiro”?

Claro que vai aparecer algum engraçadinho sugerindo “aumenta o salário e diminui a jornada”, mas entre isso e o nada, existe muita coisa que pode ser feita. Só que talvez seja necessário ouvir os beneficiários das mudanças ou melhorias.

Senão, vai surgir um montão de perfumaria, como chamar empregado de colaborador. Algo que tem custo zero e o único efeito verdadeiramente prático é aplacar a consciência do dono da empresa, que acha que está sendo mais legalzão com os empregados.

Frustração

Claro que mexer com isso não é nada fácil, mas talvez aí esteja a lição: não mexa com quem está quieto. Não se meta a fazer o que não sabe. Pois se você o chama de forma diferente, pode dar a ideia de que, com essa mudança, outras mudanças virão, e a frustração com a certeza de que é só “um nome mais chique” e mais nada, pode ser o autêntico tiro que sai pela culatra.

E colaborador para mim é quem ajuda os outros a atravessar a rua.

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