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De Juca a Barão, livro conta a trajetória do mais ilustre e carismático diplomata brasileiro

Barão do Rio Branco definiu as fronteiras do Brasil usando a diplomacia e seu conhecimento em direito internacional
O Barão que o autor retrata é uma pessoa com quem muita gente gostaria de encontrar em um boteco e tomar uma cerveja
O Barão que o autor retrata é uma pessoa com quem muita gente gostaria de encontrar em um boteco e tomar uma cerveja - Bing IA

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Um bom livro em ciências humanas é aquele que consegue aliar a profundidade necessária para que o tempo investido em sua leitura não seja perdido, mas escrito de maneira que esse tempo não acabe tendendo ao infinito, por conta de linguagem enfadonha ou tecnicismo exagerado.

Luís Cláudio Villafañe é dos que sempre produzem um bom livro. Diplomata de carreira, com passagens pelos Estados Unidos, Uruguai, México e Equador, foi embaixador do Brasil na Nicarágua.

Escreveu inúmeros trabalhos acadêmicos, e a sua última obra, Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco, é um desses investimentos obrigatórios para todos os que querem entender o país, principalmente nessa volta ao centro do palco diplomático, lugar a que o Brasil está acostumado e no qual se sente bem à vontade.

Lançado em 2018, pela Companhia das Letras, a obra é centrada na vida daquele que é provavelmente nosso maior e mais reconhecido diplomata, o que é um feito e tanto para uma categoria onde encontramos vultos do quilate como Ruy Barbosa, Oswaldo Aranha, San Tiago Dantas.

E esse prestígio foi experimentado por ele em vida. Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco – seu pai, o Visconde do Rio Branco, chegou a ser primeiro-ministro do Brasil, nos idos de 1860, nas infindáveis mudanças de gabinete entre conservadores (os saquaremas) e liberais (os luzias) – era festejado nas ruas, nos jornais, e é difícil uma cidade de determinado porte que não tenha uma rua batizada em sua homenagem. Festejado pela sua cultura, pelos seus feitos, e pela sua capacidade de trabalho.

Diplomata e workaholic

Paranhos era o que hoje chamaríamos workaholic. Dormia pouquíssimo e, quando estava em um projeto, defendendo o país em alguma questão fronteiriça, invariavelmente dormia por cima de mapas em seu escritório desorganizadíssimo.

Alimentava-se mal, o que acabou cobrando um pedágio grande no fim da vida. Morreu no Carnaval de 1912, aos 67 anos. O então presidente Hermes da Fonseca adiou oficialmente o Carnaval para o meio do ano, mas a população saiu às ruas para festejar Paranhos, e o Brasil atravessou aquele ano com dois carnavais.

E quais os grandes feitos desse grande homem? O Barão definiu o país que temos hoje, nossas fronteiras ao sul, ao norte e a oeste. Fez isso sem que o Brasil precisasse disparar um único tiro, ainda que tenha patrocinado uma corrida armamentista no continente, contra a Argentina.

Armado de um conhecimento enciclopédico de tratados coloniais antigos, geografia física e aspectos culturais de cada região do país, demonstrou ao papa, ao presidente dos Estados Unidos e a quem mais se dispusesse a arbitrar nossos conflitos fronteiriços, que as regiões em disputa eram, de fato, brasileiras – seja por conta de ocupação populacional, seja por força de tratados, seja pelos princípios do Direito Internacional.

Não delegava nenhum aspecto de suas pesquisas ou da escrita de seus memoriais, todos carregados de sua vastíssima cultura. Foi Paranhos, mais que ninguém, que estabeleceu a tradição diplomática brasileira: a opção por não guerrear, o uso do direito, da fundamentação robusta das suas causas, e da negociação por vezes arrastada, lenta, mas que levava a resultados seguros.

Contudo, nem ele estava livre de críticas: seus desafetos diziam, por exemplo, que suas concessões à Bolívia pelo reconhecimento da posse do Acre, um território em disputa também com o Peru, foram exageradas. O Barão prometeu aos bolivianos dois milhões de libras esterlinas, a construção da ferrovia Madeira-Mamoré e a concessão de uma parte de outro território brasileiro, além de, diz a lenda, dois cavalos.

Mais Juca que Barão

Pode-se dizer que Paranhos construiu nosso caminho sendo mais Juca que Barão: obsessivo, incoerente a ponto de ser monarquista fervoroso servindo ainda mais fervorosamente sua república, boêmio, festeiro.

O Juca que Villafañe retrata é uma pessoa com quem muita gente gostaria de encontrar em um boteco e tomar uma cerveja.

O autor desconstrói também a fama de americanófilo do Barão. A verdade é que o Barão tornou-se chanceler em 1902, em uma república onde o americanismo ingênuo era encontrado por todos os cantos. O que Paranhos fez foi matizar e tornar essa admiração idealista submissa aos interesses pragmáticos do País, principalmente em sua visão de dominância estratégica do hemisfério sul-americano.

O livro de Villafañe é tudo isso, e é bem mais que isso. É um convite a conhecer nosso país, nossas reais tradições, aquelas características que nos tornam sim motivo de admiração internacional. Brazil is back, e, com ele, toda a tradição iniciada pelo Barão.

Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco

Luís Claudio Villafañe G. Santos
Companhia das Letras
560 páginas 
R$ 97,90

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