Joyce Mendez
A próxima disputa energética brasileira pode começar longe das usinas, em prédios silenciosos cheios de servidores. Segundo a EPE, os projetos de data centers em análise no Ministério de Minas e Energia passaram de 19,8 GW para 26,2 GW entre setembro e novembro de 2025, avanço ligado à corrida por infraestrutura digital. O dado dá ao Brasil uma versão própria de uma discussão global: a inteligência artificial precisa de energia limpa, estável e disponível o tempo todo.
Data centers já consomem cerca de 2% da eletricidade mundial, e esse indicador deve crescer rapidamente à medida que o treinamento de modelos de IA ganha escala industrial. A inteligência artificial parece imaterial para o usuário, mas depende de servidores, refrigeração, redes e eletricidade contínua. Só a energia nuclear oferece carga de base em qualquer escala, vinte e quatro horas por dia e independentemente do clima.
O Brasil parte de uma vantagem rara. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025, da EPE e do Ministério de Minas e Energia, as fontes renováveis responderam por 88,2% da matriz elétrica brasileira em 2024. Mas uma matriz limpa também precisa ser contínua e disponível. Sol e vento são necessários para a descarbonização. São energias complementares para garantir a carga de base do sistema em qualquer clima e a qualquer hora do dia. A energia nuclear consegue.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2034, do Ministério de Minas e Energia, prevê crescimento médio de 3,4% ao ano no consumo de eletricidade, chegando a 870 TWh em 2034. Esse horizonte torna a discussão nuclear menos abstrata. O país terá de sustentar data centers, indústria, hidrogênio, mobilidade elétrica e novos usos intensivos de energia sem abrir mão da segurança de suprimento.
No Brasil, esse debate passa por Angra. Segundo dados da Eletronuclear, Angra 1 tem capacidade de 640 MW e Angra 2, de 1.350 MW. Angra 3, em construção, terá 1.405 MW, está com 65% da obra realizada e deve exigir cerca de R$ 20 bilhões para conclusão. A energia nuclear não existe no vácuo. Ela está presente em cidades e regiões concretas, perto de comunidades reais.
Usinas nucleares não são apenas geradoras de eletricidade. Elas são empregadores-âncora, grandes contribuintes e eixos estruturais da economia local por décadas. Essa dimensão territorial precisa entrar no debate brasileiro. Angra dos Reis não deve ser vista pelo prisma do risco, mas também pelo emprego qualificado, pela cadeia de fornecedores, pela formação técnica, pela arrecadação e pela infraestrutura associada à atividade nuclear soberana.
Existe um paradoxo conhecido pelos sociólogos: quanto mais longe uma pessoa vive de uma usina nuclear, maior tende a ser o medo. Quanto mais perto, maior tende a ser a confiança. O tema exige transparência, fiscalização e informação pública, mas também exige escuta das comunidades que convivem com a atividade. A relação com a energia nuclear se forma menos pelas manchetes e mais pela experiência cotidiana.
O renascimento nuclear não é nostalgia nem ideologia. É uma resposta pragmática a desafios que surgiram quase ao mesmo tempo: crescimento do consumo de energia da economia digital, metas climáticas e crises que expuseram a fragilidade de sistemas monoenergéticos – dependentes de uma única fonte. Para o Brasil, a pergunta não é se a energia nuclear substituirá as renováveis. Não substituirá. A questão é qual papel ela pode ter em uma matriz limpa, firme e competitiva. Tratar o tema como tabu empobrece uma decisão que deveria ser tomada com dados, planejamento e justiça intergeracional.


