Nem toda mensagem precisa chegar a todos

Você passa a falar bem quando entende que a mensagem não é sobre você, mas sobre quem vai recebê-la
Falar bem não é sobre dominar o microfone, é sobre dominar o ouvinte

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Sadik Sarkis

Há um erro comum em quase toda empresa. Gente que fala sem pensar em quem vai ouvir. O resultado? Mensagens confusas, e-mails longos demais, reuniões que se arrastam e decisões que se perdem no meio do caminho.

Falar bem não é sobre dominar o microfone, é sobre dominar o ouvinte. E a regra de ouro de se comunicar com objetividade e de maneira refinada (vamos chamar de “objetividade refinada”) passa a ser simples quando a mensagem não é sobre você, é sobre quem vai recebê-la.

Líderes que entendem isso param de despejar palavras e começam a entregar clareza.

O erro de achar que “todo mundo precisa saber”

No impulso de parecer transparente ou completo, muitos líderes cometem o pecado de comunicação ao quererem explicar tudo a todos.

Mas informação sem filtro é ruído. E ruído demais mata a atenção, a compreensão e, com o tempo, a confiança. Nem todo mundo precisa saber tudo. Mas todos precisam entender o que é relevante para eles. A boa comunicação deve ser como uma seta clara, direta e com alvo definido.

A comunicação genérica é inimiga da ação

Quando tudo é dito para todo mundo, ninguém entende nada com clareza. A comunicação perde força, porque falta foco.

É o que muitos autores chamam de “distribuição preguiçosa”. Ou seja, mensagens feitas para aliviar a consciência de quem envia, e não para facilitar a vida de quem recebe.

Líderes eficazes pensam o oposto. Eles perguntam:

  • Quem realmente precisa disso?
  • O que essa pessoa precisa fazer com essa informação?
  • Qual é a forma mais simples de entregar isso a ela?

Esse exercício muda completamente o resultado. Porque a mensagem deixa de ser um comunicado e vira uma ferramenta de decisão.

Porém, o mesmo tema pode (e deve) ser dito de maneiras diferentes, dependendo de quem está ouvindo.

O diretor financeiro precisa de clareza nos números. O time de vendas quer saber o impacto nas metas. O marketing precisa entender como isso afeta o cliente.

A mensagem é uma só, mas o idioma muda. Quem domina a habilidade de se comunicar com objetividade aprende a ajustar o tom sem perder o foco. O líder que fala a língua da sua audiência não é bajulador. É alguém eficaz que entende que a comunicação é uma ponte, não um palco.

O poder do contexto certo

Um erro frequente é acreditar que ser breve e objetivo é eliminar contexto. Mas se valar da objetividade refinada não é cortar informação, mas sim, dar o contexto certo, no tamanho certo. O contexto serve para ancorar a ideia, não para afogá-la. Se você não sabe dizer o que a outra pessoa deve saber, então é porque você ainda não está pronto para comunicar. Você não precisa de 15 slides para explicar algo que cabe em três frases.

Um bom líder dá o contexto suficiente para que as pessoas entendam por que aquilo importa e o que precisam fazer em seguida. Nada mais, nada menos.

O excesso de formalidade atrapalha

Líderes eficazes sabem que a linguagem formal pode matar a clareza. Palavras rebuscadas, frases longas e jargões corporativos soam bem no papel, mas soam distantes na prática.

A objetividade exige coragem para ser simples. Dizer “vamos conversar sobre o que deu errado” é mais humano (e eficaz) do que “precisamos reavaliar o processo de governança operacional e seus desdobramentos”.

A simplicidade aproxima. E pessoas próximas entendem e colaboram melhor.

Fale com propósito, não por costume

Muitos líderes se comunicam por hábito. Mandam e-mails porque “sempre fizeram assim”. Convocam reuniões por rotina. Enchem relatórios porque o formato é o mesmo há anos.

Mas comunicação sem propósito é só barulho corporativo. A pergunta essencial dos líderes que inspiram sobre o que será dito é justamente se “isso precisa ser dito?”. Se a resposta for “não”, economize tempo e palavras. Se for “sim”, diga de modo que ninguém precise reler para entender.

Uma boa comunicação deixa o outro com algo útil. Um dado que esclarece, uma decisão que orienta, um insight que inspira.

Antes de falar, escreva ou publicar algo, pergunte-se:

  • Isso ajuda alguém a agir melhor? Se a resposta for “sim”, vá em frente.
  • Isso economiza tempo ou gera valor? Se for “talvez”, reescreva.
  • Isso melhora o entendimento coletivo? Se for “não”, delete.

Ser um bom líder é ter a coragem (e o dever) de cortar o que não serve.

Clareza é cuidado e respeito

No fundo, comunicar bem é cuidar. É um gesto de empatia travestido de eficiência. Quando você fala de forma clara e objetiva, está dizendo ao outro que você se importa o suficiente para facilitar a vida dele.

Na próxima mensagem que for enviar, pare por um segundo e avalie se isso será útil para quem vai ler. Talvez descubra que a metade das palavras usadas servem mais para aliviar a sua consciência do que para ajudar o outro a entender.

A clareza cria respeito. E respeito, no ambiente corporativo, é o primeiro degrau da confiança.

Sadik Sarkis

Executivo jurídico e de Compliance com mais de 20 anos na área de gestão e liderança corporativa. Associado com formação de Conselheiro Independente e integrante da Comissão Jurídica do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Membro de Conselho Fiscal e Membro de Conselho Consultivo de instituições do terceiro setor. Membro da Comissão Especial de Compliance da OAB/SP e Membro do Comitê de Cultura de Integridade da Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Certificação em Educação Executiva em Compliance e formação de Especialista em Compliance, ambos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-Law/SP). Formação Executiva em Liderança e Negociação pela Executive Language Institute na Hult International Business School in Boston/MA. Pós-graduando de MBA em Inteligência Artificial em Negócios pela Faculdade Exame – Saint Paul. Mestrando em Soluções Alternativas de Controvérsias Empresariais pela Escola Paulista de Direito (EPD).

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