Da Redação
A transição de uma economia linear para uma economia circular no setor de energia verde não se resume à adoção de novas tecnologias. O movimento exige uma reconfiguração profunda na forma como projetos são estruturados, financiados e integrados às cadeias industriais. A viabilidade de cadeias de valor como hidrogênio verde e aço de baixo carbono depende da existência de marcos regulatórios estáveis, capazes de oferecer segurança jurídica aos investidores e permitir o compartilhamento de riscos em parcerias de longo prazo entre Europa e países como o Brasil.
Essas foram algumas das conclusões apresentadas por especialistas brasileiros e alemães que participaram nesta quarta-feira, 4 de março, de um debate sobre financiamento e estruturação da economia circular no setor de energia verde, durante o Regulation & Investment – Frankfurt 2026, evento organizado pelo Dinter – Diálogos Intercontinentais em parceria com a Goethe-Universität Frankfurt am Main, na Alemanha.
Participaram da discussão Katrin Eggenberger, ex-ministra das Relações Exteriores, Justiça e Educação de Liechtenstein; Erik Schäfer, diretor-presidente da Green Investors AG; Alexander Becker, CEO do GMHütte Group; Philipp Bohr, fundador e CEO da Fox Industry Climate Protection e da YES Ecosystems Technology; e Michael Volkermann, diretor-executivo e diretor global de Project Finance do Deutsche Bank AG. A moderação foi de Markus Exenberger, fundador e CEO da H2Global Foundation.
A transição para um modelo circular, focado em estender a vida útil das infraestruturas e maximizar o reaproveitamento de materiais, impõe desafios na estruturação de financiamentos. Segundo os participantes, investidores institucionais tendem a priorizar projetos considerados financiáveis, apoiados em contratos firmes de compra de longo prazo e em cadeias logísticas previamente estruturadas. A necessidade de integrar fornecedores de matéria-prima, produtores de energia limpa e consumidores industriais europeus foi apontada como condição para consolidar cadeias industriais de baixo carbono.
A adoção de tecnologias de rastreabilidade e plataformas digitais para o mercado de carbono é um requisito de segurança institucional, para Katrin Eggenberger. Segundo ela, a economia circular altera a lógica da infraestrutura energética ao transformar ativos lineares em sistemas integrados de geração de valor. Ela defendeu o uso de tecnologia para ampliar “transparência, eficiência e liquidez” nos mercados associados à descarbonização. “Investidores, empreendedores e formuladores de políticas precisam pensar em sistemas”, afirmou, destacando que decisões de investimento devem considerar todo o ciclo de vida dos recursos e das infraestruturas energéticas.
A viabilidade financeira das novas cadeias de valor depende da superação do chamado “prêmio verde”. Erik Schäfer argumentou que projetos de energia limpa precisam ser estruturados para alcançar competitividade de custos em relação aos combustíveis fósseis. Ele mencionou o potencial do hidrogênio geológico no Brasil e defendeu a organização de cadeias industriais completas para viabilizar a exportação de hidrogênio e amônia para a Europa. “Precisamos arquitetar cadeias de valor ao longo de toda essa linha”, disse.
A integração entre nações com vantagens complementares aparece como alternativa para acelerar a descarbonização da indústria pesada. Alexander Becker, do grupo GMHütte, afirmou que a indústria europeia depende de novas fontes de energia e insumos de baixo carbono para reduzir as emissões. Segundo ele, países como o Brasil possuem condições naturais para fornecer biocarvão e hidrogênio necessários à produção de aço com menor intensidade de carbono. “Precisamos encontrar uma maneira de usar muito menos recursos do planeta do que fizemos nos últimos 80 anos”, afirmou.
A escalabilidade de modelos de reaproveitamento de insumos também enfrenta obstáculos estruturais. Philipp Bohr afirmou que cadeias de economia circular dependem de sistemas digitais capazes de coordenar milhares de pequenos fornecedores de resíduos industriais. Segundo ele, plataformas digitais e inteligência artificial permitem padronizar a qualidade e rastrear a origem dos materiais reutilizados. “Orquestramos esses pequenos atores em um ecossistema digital que permite orientá-los e garantir a qualidade da matéria-prima”, explicou.
Segundo Michael Volkermann, o financiamento de projetos circulares depende menos de novos instrumentos financeiros e mais de uma estruturação adequada de riscos. Ele observou que instituições financeiras priorizam projetos com contratos robustos e responsabilidades claramente distribuídas ao longo da cadeia produtiva. “Não precisamos inventar uma nova forma de financiamento”, disse. “O essencial é estruturar projetos financiáveis.” Segundo ele, contratos de longo prazo e repartição clara de riscos são elementos centrais para atrair crédito bancário para cadeias industriais de baixo carbono.
Na condução do debate, o moderador Markus Exenberger destacou o desafio de alinhar o ritmo de inovação tecnológica com os critérios de financiamento do sistema financeiro. Mecanismos como leilões competitivos e contratos de compra de longo prazo foram mencionados como instrumentos capazes de reduzir incertezas e ampliar a participação de investidores institucionais em projetos de energia limpa. Para os participantes, a consolidação da economia circular dependerá da capacidade de conectar tecnologia, regulação e financiamento em cadeias industriais integradas.
