Da Redação
A próxima pandemia pode encontrar a ciência pronta, mas não necessariamente um sistema global preparado para o enfrentamento. Para Aurélia Nguyen, vice-CEO da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations, a CEPI, o mundo avançou significativamente na velocidade de geração de tecnologia após a covid-19, mas continua frágil em financiamento e equidade. “O mundo está mais preparado em alguns aspectos, porque aprendemos com a covid-19. Mas, em muitos sentidos, ainda está despreparado”, afirma.
O principal aprendizado foi a capacidade de desenvolver vacinas em tempo recorde. “Conseguimos, como comunidade global, em 326 dias”, afirma. Agora, a meta é ainda mais ambiciosa. “Queremos fazer isso em cem dias, desde o momento em que se identifica o patógeno até o dia em que se tem uma vacina.” Segundo ela, isso só é possível com esforço coordenado entre pesquisadores, governos e países parceiros. Mas a aposta depende de coordenação internacional e de redes integradas de pesquisa, regulação e produção, diz. A CEPI trabalha para distribuir essa capacidade pelo mundo, reduzindo a dependência de poucos polos industriais.
Aurélia concedeu esta entrevista na Alemanha, durante sua participação no Regulation & Investment – Frankfurt 2026, evento organizado pelo Dinter em parceria com a Universidade Goethe de Frankfurt am Main.
Desigualdade como vulnerabilidade
Se a ciência acelerou, o acesso ficou para trás. Segundo a pesquisadora, a covid-19 escancarou a assimetria entre países. “Houve enorme desigualdade na forma como os países conseguiram acesso às vacinas à medida que eram produzidas.” Para ela, o problema não é apenas moral, mas estratégico. “Essas ameaças virais podem surgir a qualquer momento e em qualquer lugar”, alerta. Um mundo desigual é também menos seguro.
A resposta, diz, passa por diversificação geográfica. “É realmente importante ter capacidade de desenvolver e fabricar vacinas em escala em todas as regiões do mundo.” Redes de manufatura, laboratórios e agências reguladoras precisam estar distribuídas para que cada região seja resiliente quando a próxima crise surgir. A meta é que cada região tenha capacidade própria de reação, e não dependa exclusivamente de exportações em momentos de escassez.
Convencer governos a investir em prevenção fora de um contexto emergencial é o desafio político central. Nguyen reconhece que há prioridades concorrentes, mas argumenta com números. “O custo da inação supera em muito o custo do investimento.” Segundo dados citados por ela, o impacto econômico da covid-19 chegou a US$ 14 trilhões. Em comparação, o Fundo Monetário Internacional estimou um custo anualizado de US$ 700 bilhões para economias que não investem em preparação para epidemias e pandemias. “É um enorme retorno sobre investimento para um custo relativamente limitado”, afirma.
A própria estrutura da CEPI revela a estratégia adotada. “O C em CEPI significa coalizão”, diz Nguyen. “A coalizão é deliberada porque nenhum ator, isoladamente, consegue enfrentar ameaças virais que podem surgir a qualquer momento e em qualquer lugar.”
O modelo reúne governos, instituições de pesquisa, investidores e indústria farmacêutica para compartilhar risco e capacidade técnica. “Assim, conseguimos responder melhor.”
Parceria Brasil-Alemanha
Nguyen vê na cooperação entre Europa e América Latina um eixo concreto de fortalecimento sanitário. A CEPI mantém parcerias com Bio-Manguinhos, Fiocruz e Instituto Butantan no Brasil, além de instituições alemãs como a Universidade de Leipzig e empresas como a BioNTech.
“Trazer todos esses atores juntos permite trabalhar nas ameaças virais relevantes para cada país”, afirma. A integração entre capacidades brasileiras e alemãs, na visão dela, não é apenas técnica, mas estratégica para a segurança regional e global. “Essas parcerias são absolutamente essenciais e podem tornar o mundo mais forte e mais seguro.”
