Da Redação
Ela começou como professora e hoje comanda uma das embarcações mais poderosas do planeta. A capitã Marina Starovoitova acaba de retornar de sua primeira expedição no comando do navio. Ela entrou para a história ao se tornar a primeira mulher do mundo a assumir o comando de um quebra-gelo nuclear. Na cerimônia de nomeação, em 2025, diante de dezenas de milhares de pessoas, Alexander Barinov, presidente honorário da organização de veteranos da Atomflot, empresa da Rosatom responsável pela operação da frota nuclear civil russa,entregou a Starovoitova o distintivo de capitã.
O momento não foi apenas uma conquista pessoal, mas um marco para o setor. A chegada ao comando seguiu uma trajetória pouco convencional, iniciada longe do gelo e da ponte de navegação. Antes de ingressar no setor marítimo, Marina dava aulas de língua e literatura russa em uma escola rural. Ao ouvir falar de vagas na Companhia Marítima de Murmansk, decidiu mudar de rota. “Minha trajetória começou como auxiliar de bordo”, diz. “Cuidar do cotidiano da tripulação era importante, mas surgiu o desejo de participar diretamente da navegação, de comandar o navio. Então decidi estudar.”
Ingressou na especialização de engenharia de navegação da Academia Marítima Estatal Admiral Makarov e passou mais de 20 anos no mar, seis deles na frota nuclear, percorrendo todas as etapas da carreira. “Quando entrei na academia, sonhava em trabalhar no mar como navegadora.”
O ponto de virada veio quando já trabalhava como imediata em embarcações de transporte. Esses navios frequentemente navegavam escoltados por quebra-gelos nucleares. “A potência dos quebra-gelos, o profissionalismo da tripulação e o conhecimento do Ártico me impressionaram. Consegui migrar para a frota nuclear em um cargo menor, como segunda oficial.”
A rota do Yamal
A frota nuclear russa tem papel estratégico na navegação da Rota do Mar do Norte, corredor marítimo considerado a ligação mais curta entre Europa e Ásia. A Rússia é o único país do mundo com uma frota desse tipo. Além do impacto logístico, a rota ganhou importância geopolítica em meio às instabilidades globais e aos problemas nas cadeias internacionais de abastecimento.
“Ser capitã significa cuidar da tripulação e do quebra-gelo. Para mim, são um único organismo. O Ártico não tolera falsidade. É preciso entrega total”, disse após a primeira viagem no comando do Yamal.
Mulheres no comando
A chegada de Marina ao comando atraiu atenção mundial. “Há cada vez mais mulheres na frota nuclear”, afirmou. “Não apenas em funções domésticas. Hoje há mulheres navegadoras, engenheiras de reatores nucleares, eletromecânicas e especialistas em segurança radiológica.” Segundo ela, a realidade já foi diferente.
“Muita gente dizia que não é trabalho para mulher. Precisei encontrar meu espaço trabalhando horas no convés em temperaturas de 30 graus negativos.”
Os quebra-gelos nucleares russos utilizam sistemas avançados de radar e monitoramento para navegar em uma das regiões mais hostis do planeta. Os navios conseguem mapear gelo, rachaduras e movimentações em tempo real em um raio de até seis milhas náuticas.
As informações são compartilhadas digitalmente entre toda a frota, permitindo decisões mais seguras sobre rotas e velocidade. A operação também envolve rígidos protocolos de segurança nuclear, acompanhados constantemente por engenheiros especializados.
Hoje, além das premiações profissionais, Marina carrega um símbolo que vai além de qualquer cerimônia: abriu uma porta que nunca havia sido atravessada na história da navegação nuclear.


