Da Redação
O modelo que viabilizou o PIX pode ser replicado em novas frentes da inovação financeira. Para Roberto Campos Neto, a fórmula é clara: padronização e infraestrutura sob coordenação do Banco Central, com desenvolvimento e interface executados pelos bancos. “Foi um trabalho muito coordenado”, afirma, ao citar a experiência da criação do sistema de pagamentos instantâneos que permite transferências em tempo real, 24 horas por dia, entre diferentes instituições financeiras.
No PIX, o BC ficou responsável pela infraestrutura crítica do sistema, como a base que registra as chaves e a compensação final das transações entre bancos. Na outra ponta, as instituições financeiras desenvolveram os aplicativos e as soluções que chegam ao cliente. Essa divisão reduziu custos de implementação, evitou duplicação de estruturas e permitiu que o sistema ganhasse escala rapidamente. Segundo Campos Neto, é esse desenho que está sendo replicado no real digital e no Open Finance.
Velocidade digital e novo risco sistêmico
Mas a digitalização que amplia a eficiência do sistema financeiro também redefine o risco bancário. Campos Neto cita o colapso do Silicon Valley Bank, em março de 2023, como exemplo de uma nova dinâmica de corridas bancárias. “Nunca tinha tido uma corrida bancária com uma perda de depósito tão rápida em tão poucas horas”, afirma. O banco, fortemente exposto a títulos de longo prazo e a empresas de tecnologia, sofreu retirada massiva de depósitos após a divulgação de perdas em sua carteira, movimento amplificado por redes sociais e pela facilidade de transferências digitais.
Foi justamente essa combinação de informação em tempo real e fricção quase zero para movimentar recursos que acelerou o colapso. A disseminação de informações sobre fragilidades do banco, combinada à ação de influenciadores digitais e à facilidade de transferência imediata de recursos, intensificou a saída de depósitos. “O custo marginal de você abrir uma conta em outro banco e transferir ficou muito baixo. O que antes exigia deslocamento físico e dias de espera agora ocorre em minutos.”
Ele lembra que os bancos são estruturalmente alavancados. “Se todo mundo for ao banco pegar os depósitos, o banco nunca vai ter liquidez, porque ele é alavancado por natureza.” Nesse ambiente de transferências instantâneas e informação viral, redes sociais passam a ficar no radar dos bancos centrais. Monitorar rumores digitais deixou de ser periférico e passou a compor a gestão da estabilidade financeira.
IA redefine produtividade e atendimento
No campo da inteligência artificial, Campos Neto identifica três estágios de impacto. O primeiro é interno. “A IA já faz os programas internos dos bancos, melhora a organização de risco e de colateral.” Engenheiros passaram a operar com múltiplos agentes de IA, ampliando produtividade no desenvolvimento tecnológico.
O segundo estágio envolve o relacionamento com o cliente. “Pela primeira vez, agentes de IA começam a ter índice de satisfação melhor que o humano”, afirma, citando a experiência concreta no Nubank, onde atua como presidente do conselho desde 2024. Diferentemente dos antigos chatbots, os novos modelos conseguem resolver demandas simples com eficiência superior à do atendimento tradicional.
O terceiro movimento ainda está em formação. “Quando um agente de IA começar a organizar a vida financeira da pessoa, sugerir viagens, fazer pagamentos, sugerir investimentos.” Para ele, essa etapa consolidará a IA como espécie de assistente financeiro personalizado.


