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“O Advogado do Diabo” 25 anos: o inferno são os outros e o diabo somos nós

Assisti-lo é como espiar pelo buraco da fechadura e ser surpreendido pelo reflexo do espelho
 “O Advogado do Diabo” 25 anos depois: o inferno são os outros e o diabo somos nós
O embate final entre os personagens de Reeves e Pacino é uma verdadeira obra-prima - Divulgação HBO

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O Advogado do Diabo não é um filme sobre advogados, nem sobre o diabo. Aliás, nem filme é. Está mais para um peep show sobre a natureza humana e seus dilemas morais. Um espetáculo produzido pelo nosso livre-arbítrio, dirigido pelo nosso ego e estrelado por um sortilégico elenco, com muita lascívia, ganância, vaidade, ira e inveja.

Assisti-lo é como espiar pelo buraco da fechadura e ser surpreendido pelo reflexo do espelho, com todas as nossas vísceras morais a nu, sem filtros do Instagram para amenizar a barra.

E justamente por tratar de temas tão universais e fidedignos à humanidade é que o longa-metragem de Taylor Hackford se mantem atual e vigoroso, mesmo após 25 anos de sua estreia no Brasil.

É uma obra atemporal, que nos convida a uma série de reflexões sobre nossas idiossincrasias existenciais.

Para quem não conhece/lembra, o Advogado do Diabo (disponível atualmente no HBO Max) conta a história de Kevin Lomax (Keanu Reaves), um jovem e talentoso advogado da Flórida.

Ele se muda para Nova York com a esposa Mary Ann (Charlize Theron) para trabalhar no Milton, Chadwik & Waters, o maior escritório de advocacia do mundo, liderado por John Milton – Al Pacino, the best tinhoso ever.

O inferno de Milton

Mas o que parecia ser um conto de fadas começa a se transformar num inferno de Dante quando Milton promove Kevin a pupilo, desafiando-o com casos cada vez mais espinhosos, incluindo defender um cliente acusado de triplo homicídio.

Ao mesmo tempo que pressiona seu menino-prodígio, Milton, sedutor como só o diabo poderia ser, afaga seu ego dando-lhe mais e mais prestígio e apresentando-o às delícias mundanas de NY.

A todo instante, os valores morais e éticos de Kevin são postos à prova; e ele os barganha, sem muito pestanejar.

Embevecido pelo próprio sucesso, prefere negligenciar a saúde da esposa para se dedicar à defesa de um cliente e continuar mantendo o troféu de “advogado que nunca perdeu um caso” em cima da lareira.

Por pura vaidade, acaba brilhando no tribunal, ganhando o caso para um assassino e perdendo a mulher.

Porém, quem somos nós para julgar Kevin?

Se somos todos carne da mesma carne? Sangue do mesmo sangue? Se comungamos dos mesmos pecados, das mesmas tentações, das mesmas angústias e do mesmo vício por memes?

Kevin é Adão/Eva no pomar do livre-arbítrio.

Ele representa todos nós. Seres curiosos, complexos, ambíguos, falíveis, narcisistas, que estão na eterna busca do prazer e da fuga da dor.

Mas que, como praticantes amadores da deontologia, tenta, por linhas tortas, fazer o que é certo (mas o que é certo e o que é errado? O que é o bem e o que é o mal? Pauta para um próximo artigo…).

O julgamento final

A escalada de tensão chega ao ápice quando Kevin confronta Milton no covil da besta. O embate entre eles é uma verdadeira obra-prima, digna de ser pendurada no Metropolitan.

São 15 minutos de um diálogo tenso, afiadíssimo. Eles se provocam, trocam acusações, abusam da ironia, fazem revelações. Até que Milton propõe uma parceria para a criação de uma nova era sobre a Terra – livre de pecados e culpas, onde tudo é permitido.

Seria a versão demoníaca do Paraíso, liderada pelo Anti-Cristo que Kevin poderia gerar.

Tudo parecia caminhar para o desfecho que Milton sonhava se não fosse um detalhe: o homem e suas crises de consciência.

Assim como Adão e Eva frustraram o conceito divinal de Paraiso ao provarem do fruto proibido, Kevin, com o resto de dignidade que lhe resta, acaba com os planos do capiroto, dando fim à própria vida.

No final das contas, parece que, seja no céu, seja na terra (ou melhor, abaixo dela), o homem, com seu livre-arbítrio e dilemas morais – é um genuíno estraga-prazeres.

Definitivamente, o inferno são os outros e o diabo somos nós.

Bônus (Aforismos de Milton)

No decorrer do filme, o personagem de Al Pacino nos dá amostras de sua retórica brilhante com frases marcantes. Confira algumas:

“Este é nosso segredo: sufocar as pessoas com gentileza. Qual o seu?”

“Cuidado com a arrogância. Seja pequeno. Inofensivo. Olha pra mim: você nunca diria que sou o mestre do universo”.

“Eu sou a mão debaixo da saia da Monalisa. Sou uma surpresa. Ninguém me vê chegando”.

“Eu nunca rejeitei o homem, apesar de suas imperfeições. Eu sou fã do homem. Um humanista”!

“Eu não faço as coisas acontecerem. Eu só armo o palco. Vocês puxam as cordinhas”.

“Advocacia é o novo sacerdócio”.

“Vaidade, definitivamente, é meu pecado favorito”.

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