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Sobre Agildo Ribeiro, goma para tapioca e a cultura do cancelamento

O que aconteceu para que o que nos unia (o escracho a políticos e partidos) seja hoje motivo de tanta desavença e mau-humor?
“Agildo no País das Maravilhas” era um show de humor que escrachava os mandachuvas de Brasília e adjacências
Agildo apresentava humorístico que escrachava todos os mandachuvas de Brasília e adjacências - Reprodução (Manchete)

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Denis Zanini Lima

Minha memória é randômica, um tanto fanfarrona e completamente inadestrável. Adora me pregar peças com lembranças totalmente desnecessárias nos momentos mais inoportunos.

Exemplos:

Quando preciso recordar a senha do uaifai (será a data de nascimento do meu filho?), ela manda a escalação do Palmeiras campeão da EuroAmerica em 1991 – com direito a banco de reservas, comissão técnica e tudo.

Se quero lembrar o nome do autor de um livro-cabeça que alguém citou na call – e que vai me deixar bem na fita – ela faz questão de relembrar do exato momento em que o professor Cataruzzi me flagrou cantando uma musiquinha nada elogiosa a sua pessoa.

Nesse nível.

Dia desses, no supermercado, tentando lembrar se precisava ou não comprar goma para tapioca,  as peregrinações aleatórias dos meus neurônios trouxeram à tona o programa “Agildo no País das Maravilhas”, estrelado pelo humorista Agildo Ribeiro, falecido em 2018.

Para os Enzos e Valentinas de plantão, “Agildo no País das Maravilhas” era um show de humor que escrachava os mandachuvas de Brasília e adjacências. Foi exibido pela TV Bandeirantes – e depois na extinta Manchete com o nome de “Cabaré do Barata” – entre as décadas de 1980/1990.

Era uma ideia audaciosa.

Afinal, a reabertura democrátiva pós-golpe apenas engatinhava e o fantasma da censura ainda rondava a produção jornalística e cultural do país.

Já havia alguns  programas de humor  com esquetes que zombavam a política tapuia (“Viva o Gordo”, “Chico Anysio Show,” “A Praça é Nossa”). Mas uma atração exclusivamente para satirizar presidentes, senadores, deputados, ministros e governadores era algo novo.

Fi-lo porque qui-lo

No programa, os excelentíssimos eram caricaturizados por bonecos de borracha, que imitavam a voz e os trejeitos dos “homenageados” (o meu favorito era o Jânio com sua indefectível fala inebriada).

No papel de host, Agildo interagia com os bonecos, ironizava seus discursos e atitudes. Mas era uma galhofa leve, sem recorrer a ofensas ou palavrões. Comparando com o que é feito hoje nas redes sociais, o programa do Agildo poderia substituir tranquilamente os Teletubbies sem traumatizar a gurizada.

O mais admirável e cada vez mais raro (principalmente nessa época de polarização) é que Agildo era um apresentador democrático: debochava de todos sem aliviar pra ninguém, independentemente do viés ideológico.

Eram alvo de sua verve José Sarney, Jânio Quadros, Paulo Maluf, Orestes Quércia, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Lula, Delfim Neto, Mario Covas, Antonio Ermírio de Moraes, Fernando Collor, Zelia Cardoso, Luiza Erundina.

Enquanto aguardava na fila do caixa, entre a vovozinha com cabelo roxo e o marombeiro da batata doce, fiquei divagando sobre a possibilidade de termos novamente uma série de humor nacional 100% focada na política, nos mesmos moldes do Agildo e seus bonecos.

Uma atração plural, democrática, fazendo troça com tudo e com todos, sem pender para nenhum lado (como alguns comediantes fazem).  Sem recorrer à baixaria, xingamentos, apenas a jogo de palavras e ironias, que proporcionariam leves cócegas no cérebro.

Um just for fun para nos distrair numa segunda à noite.

Cancelando Odete Roitman

Mas antes mesmo de chegar à inevitável pergunta “débito ou no crédito, senhor?”, já tinha me conformado que tal ideia não passava de quimera. Hoje em dia, a sanha destrutiva do proselitismo ideológico não permite que os filhotes de suas doutrinas sejam molestados por qualquer tipo de criticismo.

O programa até poderia ser produzido por algum idealista free style, mas encontraria seu fim já no primeiro episódio.

Na era do cancelamento de restaurantes, detergentes, chocolates e leites em caixinha, os sommeliers do humor iriam xingar muito no xwitter, condenando o enviesamento ideológico do programa (não importa qual, já que o olhar do observador altera o fenômeno) e ameaçando boicotar seus patrocinadores.

O humorístico conseguiria a proeza de ser uma espécie de Odete Roitman da política, unindo direita, esquerda, centro, frente e trás no quesito ódio popular.

Horário político permanente

Isso me levou a refletir: o que aconteceu nestes últimos anos para que o que nos unia (debochar políticos e partidos era um verdadeiro esporte nacional) seja hoje motivo de tão sangrenta e insana divergência?

A verdade é que a classe política desenvolveu um método infalível de manipulação em massa, usando as redes sociais como uma ferramenta de doutrinação, cabotinismo e pregação de ódio às diferenças. Ela percebeu que não precisa mais de espaço em rádios, tevês, jornais, revistas e palanques para construir sua reputação e obter votos.

Agora, todo dia é dia de fazer campanha eleitoral. Basta um celular, uma retórica inflamada e moinhos de vento para serem combatidos.

Vossas excelências viraram codiretores do “Brasil na Era do Pós-Verdade”, uma tragicomédia ad continuum criada sob narrativas tendenciosas e altamente virais.

Somando este storytelling maquiavélico com uma turba raivosa, desorientada e sem letramento digital, temos a tempestade perfeita para a produção industrial de divindades políticas e suas respectivas seitas.

Mais do que adorar seus ídolos de barro, esses fã-clubes tem como missão blindá-los, fazendo uso indiscriminado da intimidação para ofender, ameaçar e cancelar quem ousa duvidar da santidade dos seus alecrins dourados.

É uma patrulha barulhenta, vingativa e, fundamentalmente, muito mal-humorada; não perdoa um chiste, um riso de soslaio, uma mangaçãozinha que seja. Para eles, caçoar seus políticos de estimação é pior do que xingar a mãe, uma blasfêmia digna de ser punida nas fogueiras virtuais.

Ungindo bezerros de ouro

Uma pena. Esquecem que de divinal – ou de übermensch – a classe política não tem nada. São pessoas normais, feitas de carne e osso, que ocupam cargos de agentes públicos, pagos com nosso dinheiro para nos servir.

São seres falíveis, sem nenhum poder sobre-humano, que erram e que acertam, passíveis de críticas e de cobranças; portanto, sem condições nenhuma de ocupar assento no Olimpo.

Eles Ignoram também que o humor inteligente é uma das formas mais democráticas de reflexão e expressão. Ele estimula o senso crítico, traz para o debate pontos divergentes, provoca a quebra de paradigmas e, o melhor de tudo, nos faz rir.

Fato é que, enquanto houver gente ungindo bezerros de ouro, a ideia de um programa de humor político e democrático vai ser apenas mero devaneio deste nefelibata diletante.

PS: acabei não levando a goma. E não tinha em casa ☹

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