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Saber recuar também é liderar

O sucesso vem da capacidade de escolher as batalhas certas e realocar esforços para onde realmente importa
Líderes, atletas e visionários entenderam o valor da perda antes de alcançarem a grandeza
Líderes, atletas e visionários entenderam o valor da perda antes de alcançarem a grandeza

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Cristiano Zanetta

Em um mundo onde a resiliência é exaltada como virtude, recuar pode parecer sinônimo de fraqueza. Nossa cultura empresarial e pessoal prega que persistir é sinônimo de sucesso, mas até que ponto insistir é realmente inteligente? Recuar não significa desistir, mas sim adotar uma estratégia mais consciente para seguir adiante com força renovada.

O mito de que grandes líderes nunca desistem permeia o mundo corporativo. No entanto, empresas bem-sucedidas demonstram um padrão claro: o crescimento duradouro exige capacidade de adaptação. Grandes nomes da indústria souberam reconhecer quando uma abordagem se tornava obsoleta e precisavam mudar de rota. 


Por que isso importa?

O artigo aborda um tema essencial para o mundo corporativo e a vida pessoal: a importância de reconhecer quando é mais estratégico recuar do que insistir em um caminho inviável. Em uma cultura que valoriza a resiliência e a persistência, entender os limites dessa mentalidade é fundamental para evitar desperdício de tempo, recursos e energia em projetos, carreiras e decisões que já não fazem sentido.

Um exemplo notável é Howard Schultz, que deixou o cargo de CEO da Starbucks em 2000 para se concentrar na estratégia global da empresa. Nos anos seguintes, a rápida expansão levou a desafios operacionais e à perda de identidade da marca. Em 2008, diante da crise financeira e da queda no desempenho da empresa, Schultz retornou ao cargo de CEO, reestruturou a marca, fechou lojas não lucrativas e reposicionou a Starbucks como líder do setor de cafeterias.

Recuar também exige coragem. Existe um medo inerente à mudança de rota, pois ela pode ser interpretada como falha. No entanto, muitas vezes, o fracasso pode estar em persistir em um caminho que já se revelou inviável. Profissionais que sabem o momento certo de reavaliar suas decisões evitam desperdiçar tempo e recursos em projetos sem futuro.


Para quem esse assunto interessa?

Esse tema interessa especialmente a líderes empresariais, gestores, empreendedores e profissionais em busca de desenvolvimento de carreira, pois impacta diretamente a tomada de decisões estratégicas. Também é relevante para qualquer pessoa que enfrenta dilemas sobre quando insistir ou mudar de rota, seja na vida profissional ou pessoal.

Essa lógica se aplica à esfera pessoal. Relacionamentos, projetos e objetivos raramente seguem linhas retas e previsíveis. Insistir em algo que já se mostrou disfuncional ou desgastante pode nos afastar do que realmente desejamos. Saber quando soltar, abrir espaço para novas oportunidades e aceitar ajustes é uma habilidade essencial para o crescimento.

A persistência e suas nuances

Angela Duckworth, psicóloga e pesquisadora, dedicou sua carreira a estudar os efeitos da resiliência no sucesso. Sua pesquisa demonstrou que a “garra” — ou “grit” — é um fator decisivo para a superação de desafios. Em um estudo com cadetes da Academia Militar de West Point, ela identificou que persistência superava inteligência ou condição física como indicador de sucesso.

Mas até que ponto a obstinação é benéfica? Duckworth defende que “o esforço conta duas vezes”, amplificando o talento e conduzindo à excelência. No entanto, há uma linha tênue entre perseverança e teimosia destrutiva. Muitos profissionais persistem em carreiras insatisfatórias por medo do estigma da desistência, quando, na realidade, o verdadeiro erro está em permanecer indefinidamente no caminho errado.

O maior desperdício não está em recuar, mas em insistir em um percurso fadado ao fracasso. O diferencial dos líderes excepcionais? Saber que a direção certa muitas vezes começa com uma curva.

O paradoxo do entrapment e o caso Jeffrey Z. Rubin

Jeffrey Z. Rubin, psicólogo especialista em resolução de conflitos, perdeu a vida em 3 de junho de 1995 ao tentar escalar uma montanha no Maine, EUA. Mesmo diante de um nevoeiro denso e de advertências sobre os riscos, ele decidiu seguir em frente. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado.

Rubin foi um dos pioneiros na teoria do “entrapment”, que explica por que tendemos a nos prender a decisões ruins, mesmo quando os sinais indicam que devemos parar. Em um experimento na década de 1970, ele demonstrou como as pessoas são inclinadas a continuar investindo em algo apenas porque já despenderam tempo e esforço ali. Seu destino final foi uma trágica ironia: um homem que estudava a dificuldade de recuar acabou sucumbindo a ela.

Esse fenômeno se repete em vários contextos: projetos empresariais que se tornam verdadeiros buracos financeiros, relações mantidas por inércia, decisões estratégicas que se perpetuam mesmo quando a realidade exige mudança. O medo de parecer fraco impede a reavaliação, levando a consequências desastrosas.

Um lugar entre a determinação e a adaptação

Líderes, atletas e visionários entenderam o valor da perda antes de alcançarem a grandeza. Pergunte a Aaron Rodgers, Michael Jordan ou Tom Brady: cada um transformou derrotas em combustível para a evolução. O fracasso não é um ponto final, mas uma virada para quem sabe aprender com ele.

Recuar é uma decisão fundamentada na inteligência estratégica. O sucesso vem da capacidade de escolher as batalhas certas e realocar esforços para onde realmente importa. No final das contas, sua grandeza estará na habilidade de enxergar além do imediato e compreender que avançar nem sempre significa seguir em frente a qualquer custo, mas sim saber para onde e como seguir.

Foto de Cristiano Zanetta

Cristiano Zanetta

Empresário, palestrante TED e filantropo reconhecido pela Warner Bros. Se destaca como uma das principais referências do país no campo da humanização e tem desempenhado um papel significativo na reinvenção das ações sociais em todo o Brasil, conforme destacado pela Federação Brasileira dos Hospitais. Sua notável contribuição lhe rendeu duas medalhas de honra do Exército de Santa Catarina, em virtude do trabalho realizado junto a pacientes oncológicos. Além disso, Cristiano é o autor do livro "A Ciência do Batman", que se baseia em duas décadas de suas ações sociais.

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