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Clube de Bilderberg, White Lion, aliens: o que está por trás de “O Mundo Depois de Nós”

Longa de Sam Ismail é um quebra-cabeça com peças faltantes para que o espectador crie sua própria narrativa
Além do tom apocalíptico, o filme também aborda o racismo estrutural
Além do tom apocalíptico, o filme também aborda o racismo estrutural - Jojo Whilden/Netflix

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Denis Zanini Lima

Atenção: este artigo contém spoilers e teorias escalafobéticas da primeira à ultima linha. Siga por sua conta e risco

“O Mundo Depois de Nós” estreou em dezembro na Netflix dividindo opiniões, gerando polêmicas e fervendo a cabeça de muita gente por conta de um série de perguntas sem respostas. Quem está liderando o ciberataque aos EUA? Qual o objetivo do som estridente que surge todas as tardes? Para onde foram as pessoas? Porque os animais estão se comportando de forma tão estranha?

O objetivo do filme é justamente esse, manter o mistério no ar deixando algumas migalhas de pão nas entrelinhas para que o espectador formule suas teorias. O longa do estreante Sam Ismail (do seriado “Mr.Robot”) é um quebra-cabeças com peças propositalmente faltantes para que cada um preencha as lacunas e crie sua própria narrativa.

Para quem não viu, “O Mundo depois de nós” mostra a família Sandford – Amanda (Julia Roberts), Clay (Ethan Hawke) e seus filhos Archie e Rose – indo passar férias em uma paradisíaca mansão alugada. A trama começa a esquentar quando o dono da casa, GH Scott (Mahershala Ali), e sua filha Ruth (Myha’la Herrold) aparecem de repente, pedindo para passar a noite por lá, devido a um blecaute na cidade.

A partir daí, uma série de estranhos fenômenos começa a se intensificar: a interrupção da transmissão de rádio e tevê, o colapso da internet, as falhas nos sistemas de navegação de navios, aviões e carros autônomos, ruídos ensurdecedores, blecaute generalizado. Ou seja: temos em mãos o script de um possível terceira guerra mundial.

Por sua proposta, a obra  é econômica nas respostas mas generosa nos simbolismos e referências (tem até alguns easter eggs perdidos por aí). Como não vemos as coisas (nem os filmes) como eles são e sim como nós somos, compartilho minha interpretação particular sobre alguns fatos que acredito serem importantes para a compreensão do filme.

Clube de Bilderberg, a seita maligna

Dizem que quando o álcool entra, a verdade sai.

Um dos pontos-chave para compreender a trama está justamente em um diálogo de alta octanagem entre Amanda e Mr. Scott. Depois de tomar umas e outras, GH se abre e revela o que acendeu seu sinal de alerta e o fez buscar refúgio em sua casa de campo.

Ele conta que, há algum tempo atrás, numa noite de bebedeira com um dos seus clientes, um mandachuva do Pentágono (“a pessoa mais importante com quem já jantou”), o convidou para viajar com ele, para participar da “reunião anual com a seita maligna que controla o mundo”.

A seita maligna em questão é uma clara referência ao Clube de Bilderberg.

Criado após a Segunda Guerra, o Clube Bilderberg é uma organização não-oficial que nasceu para, teoricamente, promover a cooperação transatlântica e debater assuntos relevantes em nível mundial. Em outras palavras: defender o globalismo. O nome Bilderberg vem do hotel na Holanda que abrigou a primeira reunião, em 1954.

Desde então, o evento se repete anualmente em algum estabelecimento de luxo na Europa, EUA ou Canadá (o encontro deste ano aconteceu no Pestana Palace Lisboa, em Portugal, cuja diária custa 1000 euros).

Participam cerca 130 convidados, entre CEOs e fundadores de grandes multinacionais, reis, presidentes, primeiro-minstros, militares de alta patente, secretários de estado. Juntos, esses medalhões controlam quase todo PIB do planeta e, consequentemente, o destino do mundo.

Devido ao seu caráter confidencial, no qual não são revelados pautas nem participantes, o encontro é rodeado de especulações e teorias conspiratórias. Dizem, por exemplo, que candidatos aos cargos executivos das grandes nações só são aceitas depois que estes passam pelo cerimonial de beija-mãos.

Falam também que guerras, golpes de estado, invasões, renúncias, impeachments, compras de empresas, privatizações de serviços públicos, comercialização de novas tecnologia e o destino de bilhões de dólares em investimento são dedicidas nessas plenárias.

Verdade ou não, fato é que, quando este mesmo cliente ligou para GH de forma repentina, à noite, solicitando uma transferência absurda de dinheiro, ele desconfiou que ia dar ruim. A queda da internet foi o primeiro sinal (sacaram? Sacaram? Eu sou mesmo muito galhofeiro) que a hecatombe tinha sido iniciada.

White Lion: brancos em cima, negros embaixo, chicanos à deriva

A tensão racial é uma das tônicas do filme. E o impasse começa logo nos primeiros minutos, antes mesmo de GH e Ruth chegarem à própria casa, na desconfortante cena onde são confrontados por uma desconfiada Amanda.

Estou falando do momento em que o petroleiro encalha na praia. Mas o que o incidente tem a ver com o racismo? Simples. Lembram o nome dele?

White Lion.

Não por acaso, é o mesmo nome do navio que trouxe os primeiros escravos vindos da África para as colônias inglesas na América do Norte. Como sabemos, nessas embarcações, os brancos ficavam em cima e os negros embaixo, no porão, em condições insalubres.

E a casa da família Scott emula com perfeição o racismo estrutural que perpassa os séculos nas terras do Tio Sam. Embora seja proprietária da mansão, tenha poder aquisitivo substancialmente maior e cultura e educação mais elevadas, a família de GH é subjugada por uma família branca, inquilinos que se sentem donos do pedaço.

GH e Ruth são tratados como visitantes em sua própria residência, sendo obrigados a utilizar o quarto de hóspedes, que fica – não por acaso – no porão. Uma total inversão de papéis. A questão para refletir é: se fossem brancos a situação seria a mesma ou fariam valer sua posição de proprietários?

A câmera provocativa de Sam Esmail coloca a lente na ferida com um travelling vertical pela casa, começando do piso superior, onde a família Sandford dorme tranquilamente, passando pelo térreo até chegar ao porão, onde encontramos os Scotts deitados, conversando.

Ruth alerta o pai: “Estou pedindo para se lembrar que, se o mundo ruir, não devemos confiar em ninguém. Muito menos em brancos. Estamos dormindo no nosso porão pela segunda noite seguida”.

Mas a tensão racial não pára por aí. O filme vai mais a fundo. Atualmente, existe nos Estados Unidos um degrau mais baixo no organograma social que não é ocupado nem por pretos, nem por brancos.

Estamos falando dos chicanos, latinos provenientes do México, das Américas Central e do Sul (inclusive do Brasil), que largam tudo em busca do tão almejado sonho americano. Contudo, muitos entram em condições ilegais no país, e se sujeitam a situações constrangedoras e trabalhos humilhantes para sobreviver.

É uma classe à margem da sociedade, sem direitos, sem voz ativa, com quase nenhuma representativade política. E o fato é retratado na cena (que, em um primeiro momento, parece aleatória) em que Clay está perdido, dirigindo pela estrada, e vê uma mulher no acostamento, acenando desesperada.

Ele imagina que a moça poderá ajudá-lo a encontrar o caminho de casa ou ter informações sobre o que está acontecendo. Clay para o carro, abaixa o vidro mas não consegue desenvolver diálogo com a mulher, pois ela fala espanhol, idioma que não compreende.

Embora não se faça entender verbalmente, é nítido que a mulher clama por socorro. Mas como Clay não consegue entendê-la e esta se mostra inútil para suas pretensões, ele opta por não ajudá-la, largando-a sozinha, gritando, sem ter para onde ir. Novamente aqui a questão: se a mulher fosse branca e americana, teria Clay tomado a mesma atitude?

Parece que os Estados Unidos são uma extensão atualizada do White Lion, onde os brancos estão em cima, os pretos embaixo e os chicanos à deriva, lançados ao mar.

Rose, a heroína improvável

O darwinismo defende que as espécies com maior capacidade de adaptação são aquelas com maiores probabilidades de sobreviverem. Como a mudança é uma tônica da natureza, é esperado que as novas gerações dessas espécies passem por transformações graduais para se moldarem aos seus respectivos ecossistemas.

Só que, às vezes, essas adaptações – que serão decisivas no futuro – podem surgir de forma muito precoce, mostrando-se incompreendidas e inúteis no presente. Mas, como diria o trovador Mano Brown, quem chora agora, ri depois.

Aqui é a deixa para falarmos da pequena Rose, a mais subestimada das personagens. Ninguém leva muito a sério o que ela faz ou diz. A primeira impressão é que se trata apenas de uma pré-adolescente como tantas outras, sonhadora e alheia ao mundo, cujo maior desejo é assistir ao último episódio de Friends.

Lego engano. Rose é sagaz, extremamente observadora, curiosa, independente e cheia de atitude. Por mais improvável que seja, é a mais adaptada do grupo para sobreviver ao cataclisma que se avizinha.

No frigir dos ovos, de que valeram o ímpeto controlador de Amanda, o espírito apaziguador de Clay, o pensar estratégico de GH ou o ativismo de Ruth? Já Rose seguiu à risca seu manual de sobrevivência darwiniano salvando a si e os demais.

É só se ater aos fatos.

Foi ela quem primeiro detectou o navio vindo em direção à praia, mesmo quando a embarcação estava distante. E graças ao seu alerta a família teve tempo de se salvar. Também foi quem primeiro percebeu que tinha algo de anormal acontecendo, quando se viu cercada por centenas de cervos. Ela tentou avisar o irmão, mas só recebeu desdém.

Quando a família estava tentando voltar para a estrada, foi Rose quem novamente ligou o sinal de alerta dizendo que não conseguia dormir por conta das sirenes. Por fim e mais importante, foi ela quem descobriu (sozinha) a casa dos Thornes, tomou a iniciativa de ir até lá e achar o bunker, onde possivelmente os demais se reencontraram.

Ou seja, enquanto os adultos ficaram estagnados, formulando hipóteses, brigando entre si ou fazendo incursões infrutíferas, ela simplesmente seguiu seus instintos e obteve o que queria.

Rose é, sem querer, a grande heroína do filme.

Se houver um “O Mundo Depois de Nós 2” daqui há alguns anos, não me admiraria se ela aparecesse como a líder da resistência contra os invasadores.

Invasão alien? Tempestade solar? Quem é o real inimigo?

Falando em invasores, uma das perguntas em aberto que mais frustrou os espectadores foi sobre a autoria dos cibertaques. Quem são os inimigos? Chineses? Coreanos? Iranianos? Robôs rebeldes? Então vamos nós para mais uma teoria estapafúrdia – mas que tem lá uma certa plausibilidade.

Quem garante que o ataque foi causado por ação humana ou de alguma forma de inteligência proveniente da Terra? O filme não faz nenhuma afirmação neste sentido. As mensagens sobre os ataques que aparecem no celular de Amanda, nas TVs da casa e do bunker e no rádio do carro de Clay são lacônicas e não dão nomes aos bois.

Portanto, a imaginação é livre para criar alternativas, principalmente quando as imagens dão lastro para isso.

Explicando melhor.

Há, durante a transição de pontos capitais do filme, três cenas em que a Terra é vista do espaço. A última mostra a Lua e dá um close em um desbotada bandeira dos Estados Unidos. Por qual motivo? Essas cenas não foram inseridas à toa. Como vimos, Ismail não dá ponto sem nó. Todo take é dotado de significado.

Quem sabe, então, o inimigo não veio do espaço? Aliás, não seria nenhuma novidade. A maior parte dos filmes apocalípticos tem sua origem em ataques alienígenas ou em alguma bizarra infecção zumbi. Corroborando esta tese, temos várias cenas com enquadramentos feitos de cima, como se os personagens estivessem sendo observados do alto.

Mas existe ainda uma outra possibilidade, também vinda do espaço, mas que não envolve seres vivos, apenas um fenônemo da natureza. Talvez o diretor tenha mirado a lua e acertado a estrela. No caso, o Sol.

Como foi amplamente noticiado nos últimos meses, pesquisadores afirmam que a Terra deverá ser atingida entre 2024 e 2025 por um supertempestade solar, que pode afetar o funcionamento de satélites, da rede elétrica e da internet. Há quem afirme que existe 10% de chances disso acontecer.

Assim, poderíamos ter um colapso semelhante ao que foi mostrado no filme, fazendo com que a humanidade voltasse à níveis primitivos, vivendo da caça e da coleta em Oxxos abandonados, buscando entretenimento nos catecismos de Zéfiro e tendo que se comunicar sem o uso de emojis.

Restar torcer para que a supertempestade solar seja tão inofensiva como o bug do milênio. Imagina o horror que seria ter que conversar com as pessoas sem ser por áudios de WhatsApp?

Easter Eggs

– O nome do livro que Amanda está lendo é ” Beach Towel – A Novel”, de Otto Irving, que também aparece em Mr. Robot, série dirigida por Ismail

– A casa que GH entra para procurar o telefone por satélite pertence aos “Huxleys”, uma homenagem a Aldous Huxley, autor de “Admirável Mundo Novo”, um clássico da distopia.

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