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Livro denuncia violações institucionais contra mulheres trans e travestis no sistema judiciário

"Doutor Juiz, Eu Sou Uma Travesti" analisa audiências de custódia e revela desrespeito sistemático à identidade de gênero. Lançamento será dia 16 de maio, na Livraria Telaranha, em Curitiba
Capa do livro “Doutor Juiz, Eu Sou Uma Travesti”, de Diego Paolo Barausse, com fundo em faixas onduladas nas cores azul, rosa e bege e subtítulo sobre perspectivas transfeministas em audiências de custódia.
Doutor Juiz, Eu Sou Uma Travesti

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Da Redação

Mais de 90% das pessoas que integram o Poder Judiciário brasileiro são cisgêneras e heterossexuais, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Essa composição tem consequências diretas: mulheres trans e travestis continuam invisibilizadas nas audiências de custódia, com desrespeito generalizado ao nome social e uso de pronomes vinculados ao sexo biológico, não ao gênero. É o que revela o livro “Doutor Juiz, Eu Sou Uma Travesti: Perspectivas Transfeministas sobre Audiências de Custódia no Processo Penal Brasileiro”, do juiz paranaense Diego Paolo Barausse. Publicado pela Editora Appris, o lançamento será no dia 16 de maio, às 10h30, na Livraria Telaranha, em Curitiba.

Apesar de maio marcar o Dia Nacional do Orgulho Trans (15), os dados ainda indicam um cenário preocupante: o Brasil permanece há mais de uma década como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Nesse cenário alarmante, essa população continua invisibilizada pelo sistema de justiça criminal. Diego Paolo Barausse atuou entre 2016 e 2020 na Central de Custódia de Curitiba, realizando audiências de custódia — o primeiro contato de uma pessoa presa com um juiz. Foi nesse período que ele percebeu um desrespeito generalizado à identidade dessas mulheres e ao nome social, além da utilização inadequada de pronomes de tratamento, invariavelmente vinculados ao sexo biológico e não ao gênero das pessoas.

“O Poder Judiciário, em muitos momentos, silencia a identidade dissidente dessas mulheres, recusando-se a reconhecê-las como ‘mulheres'”, afirma Diego. “A porta de entrada do ‘cistema’ de justiça criminal é acompanhada de diversas violências transfóbicas, cometidas e retroalimentadas pelo Estado, materializadas na segurança pública e no Judiciário”, diz.

O livro propõe o que o autor chama de transfeminismo jurídico — um novo olhar sobre o Direito que convida operadores do sistema de justiça a interpretar as leis a partir das experiências de pessoas trans, travestis e não binárias. “De maneira geral, a interpretação jurídica parte da ideia de um sujeito universal, abstrato e objetivo. No mundo real, porém, esse discurso supostamente neutro favorece os homens em relação às mulheres, as pessoas brancas em detrimento das pessoas negras e marginaliza identidades não cisgêneras e orientações sexuais diversas da heterossexualidade”, explica.

A pesquisa mostra violências desde a prisão até as audiências de custódia: desrespeito ao nome social e à identidade de gênero por policiais e delegados; documentos oficiais que ignoram a existência de mulheres trans e travestis; ausência de perguntas sobre violência policial, tratamento hormonal ou problemas de saúde; falta de informações sobre identidade de gênero nos processos judiciais.

“É necessário ser objetivo e direto: não há margem para interpretações diversas ou achismos. Todas as pessoas que fazem parte do Poder Judiciário, no decorrer das audiências de custódia, devem respeitar a identidade de gênero e o nome social das pessoas trans e travestis”, afirma Diego. “O respeito à identidade de gênero e ao nome social é basilar, pois trata-se da observância de um dos fundamentos da República Federativa do Brasil: a dignidade da pessoa humana.” Apesar disso, existem normas avançadas, mas a realidade é de violência. O Conselho Nacional de Justiça publicou a Resolução nº 348/2020 sobre o tratamento de pessoas LGBTQIAPN+ nas prisões. Ainda assim, Diego mostra que o “cistema” de justiça continua entendendo gênero de forma biologizante, vinculando-o ao sexo e não à identidade das pessoas.

Para transformar esse “cistema” em um sistema real, Diego propõe mudanças concretas: julgamentos que considerem a perspectiva transfeminista; treinamento obrigatório de todas as pessoas que trabalham no Judiciário, com participação de pessoas vulnerabilizadas por questões de gênero e orientação sexual; e criação de cotas para pessoas trans e travestis no sistema de justiça. “Se as vozes trans e travestis ecoarem em todos os espaços, será possível transformar a sociedade, o Direito, o ‘cistema’ de justiça e a todos, todas e todes nós”, conclui.

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