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Acesso a minerais críticos redefine segurança energética e impõe industrialização local no Brasil

Especialistas vinculam transição verde e soberania econômica ao refino nacional e à diversificação de cadeias em evento organizado pelo Dinter na Alemanha
Autoridades e executivos participam de painel em Frankfurt sobre minerais críticos, transição energética e industrialização no Brasil
evento organizado pelo Dinter na Alemanha

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Da Redação

A transição energética e a estabilidade da economia global estão diretamente condicionadas ao acesso seguro aos minerais críticos. Em um cenário de escalada geopolítica e alta concentração do refino na Ásia, a diversificação das cadeias de suprimento deixou de ser uma escolha comercial para se tornar um imperativo de segurança e soberania para o Ocidente. Para o Brasil, o desafio não reside apenas em liderar a extração global de materiais como lítio, nióbio e terras raras, mas em utilizar essa vantagem comparativa para atrair transferência de tecnologia, capacitação técnica e adensamento industrial dentro de suas próprias fronteiras.

Essas foram as principais conclusões do debate sobre acesso efetivo a minerais críticos e o papel desses materiais na transição energética, realizado durante o Regulation & Investment, na Goethe-Universität Frankfurt am Main, na Alemanha, organizado pelo Dinter – Diálogos Intercontinentais.

Participaram da mesa Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia do Brasil; Peter Altmaier, ex-ministro federal da Economia e Energia da Alemanha; André Viana Madeira, membro do Conselho da Vale; Christian Hoffmann, diretor global de Geopolítica, Relações Internacionais e Assuntos Governamentais da Siemens AG; e Dirk Harbecke, presidente do Conselho da Rock Tech Lithium. A moderação foi de Stephan Weber, consultor e investidor, ex-CEO da Anglo American Brasil e ex-diretor executivo do Grupo CSN.

A discussão evidenciou que a vulnerabilidade das cadeias produtivas globais decorre da extrema dependência do processamento químico concentrado na China, que hoje domina o refino de insumos estratégicos para baterias, painéis solares e sistemas de defesa. Também foi ressaltado que a força das instituições brasileiras e sua estabilidade jurídica conferem ao país diferencial relevante para atrair capital e tecnologia europeia. Contudo, a consolidação de investimentos privados de longo prazo depende de parcerias capazes de reduzir custos logísticos, mitigar impactos ambientais e sustentar o desenvolvimento regional.

Para Alexandre Silveira, o Brasil não pode repetir, no setor de minerais críticos, o modelo aplicado ao minério de ferro, no qual a falta de industrialização levou à predominância da exportação de commodities primárias. “Os minerais críticos são, para o século 21, o que o petróleo foi para o século 20”, declarou o ministro, defendendo que a atração de capital venha acompanhada da estruturação produtiva no país, com agregação de valor e incorporação tecnológica. Ele citou o caso da Indonésia, que condicionou suas reservas de níquel à instalação de plantas de refino em seu território, forçando a industrialização local.

A urgência da demanda foi reforçada por Stephan Weber, ao destacar a irreversibilidade da eletrificação. “Nos próximos 25 anos, nós vamos ter que minerar mais do que mineramos na história da civilização”, afirmou, chamando atenção para a necessidade de suprimento contínuo de materiais como cobre, cobalto e nióbio para sustentar a transição.

Segundo Peter Altmaier, a Alemanha e a União Europeia demoraram a perceber o potencial de parceiros como o Brasil e tornaram-se excessivamente dependentes de cadeias concentradas, orientadas quase exclusivamente pelo menor custo. Para ele, choques geopolíticos, guerras e crises sanitárias demonstraram que esse modelo fragiliza a segurança econômica ao expor setores estratégicos a interrupções abruptas.

Altmaier defendeu a formação de redes de abastecimento mais resilientes, com participação ativa do Estado por meio de garantias públicas e instrumentos de política industrial. Na avaliação dele, a diversificação requer apoio governamental ao financiamento de projetos no exterior e maior envolvimento da indústria europeia no desenvolvimento de parceiros estratégicos, como o Brasil, a fim de reduzir vulnerabilidades estruturais.

A expansão de tecnologias como data centers e inteligência artificial amplia a pressão sobre matérias-primas estratégicas e exige novos marcos regulatórios. André Viana afirmou que o desafio não se resume à extração, mas envolve soberania produtiva e acesso tecnológico, já que mais de 90% do refino global de terras raras está concentrado em um único país. Ele alertou para o risco de nações com grandes reservas não capturarem ganhos econômicos e capacitação técnica em razão de gargalos como demora no licenciamento e ausência de coordenação institucional.

Christian Hoffmann centrou sua análise na infraestrutura e na cooperação tecnológica entre Europa e Brasil, especialmente na digitalização e na modernização energética da mineração. Segundo ele, a competitividade sustentável do setor não depende apenas de energia limpa, mas também de integração tecnológica, rastreabilidade e segurança regulatória.

O executivo chamou atenção para um obstáculo específico nas relações bilaterais. “Um tema que ainda é entrave e que vale retomar é o acordo de bitributação, que não existe desde 2005. Esse é um ponto que dificulta investimentos no país”, afirmou. Para Hoffmann, alianças transcontinentais exigem previsibilidade tributária, instrumentos financeiros adequados e critérios socioambientais claros no licenciamento.

Energia limpa

A disponibilidade de energia limpa e competitiva também pode redefinir o mapa global do refino de minerais estratégicos, segundo Dirk Harbecke. Ele destacou a vantagem de países como Brasil e Canadá para a instalação de refinarias de lítio. O processamento químico de alta complexidade é intensivo em energia e, nesse aspecto, a matriz elétrica brasileira oferece diferencial relevante em custo e pegada de carbono frente a polos asiáticos.

Por outro lado, empresas ocidentais enfrentam desvantagem no acesso a financiamento, afirmou. “Isso é importante para nós não porque somos mais lentos, mas porque a China vem com muito mais dinheiro e com muito menos regras”, disse. Para ele, políticas públicas que garantam previsibilidade regulatória e critérios claros de mercado são fundamentais para equilibrar a concorrência e viabilizar cadeias produtivas fora do eixo asiático.

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