Por Alexandre Mendonça
Os romances “Operação Santa Catarina: o crime compensa?” e “Operação Fênix: o renascimento da justiça?”, lançados simultaneamente pela Editora Artêra, constituem um díptico que acompanha, em dois movimentos complementares, a desarticulação de um esquema de corrupção instalado nas estruturas do poder público paranaense. Lidos em conjunto, formam uma narrativa contínua, na qual o desfecho do primeiro volume abre a investigação que sustenta o segundo, e ambos permitem observar, com clareza, o modo como a experiência jurídica do autor se converte em matéria literária.
“Operação Santa Catarina” apresenta a advogada Catarina Bianchi como protagonista e eixo de toda a trama. Bianchi é descrita como profissional de renome, requisitada por empresários, políticos e grandes empreiteiras, que se especializou em operar nas sombras do sistema, articulando lavagem de dinheiro, corrupção e blindagem jurídica para uma elite criminosa. Para dar cobertura formal a essas atividades, a personagem cria a joint venture Saint Catherine, fachada que lhe permite intermediar o pagamento de propinas entre construtoras e agentes públicos, valendo-se de empresas offshore, codinomes e contas em paraísos fiscais na Suíça e no Panamá.
O ponto de inflexão da narrativa ocorre quando o promotor Alberto Cardoso e o delegado Jorge deflagram a operação que dá nome ao romance, direcionada a desmantelar um esquema de fraudes em licitações e corrupção sistemática nas obras de contratação de uma usina hidrelétrica. Cercada pela investigação, Catarina negocia sua liberdade por meio de colaboração premiada, expondo a rede de crimes de seus antigos clientes, entre eles o engenheiro Maurício Oliveira, cuja construtora cresceu justamente à sombra desse sistema corrompido.
O romance é prefaciado pelo desembargador federal aposentado Vladimir Passos de Freitas, ex-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil, e organiza-se em torno da tensão entre a lógica da colaboração premiada, as disputas internas de poder entre os personagens e a busca de redenção de figuras que, até então, pareciam irremediavelmente comprometidas com a criminalidade que serviam.
“Operação Fênix” retoma esse universo a partir das mortes de Catarina Bianchi e de Maurício Oliveira, cujas circunstâncias permanecem obscuras até que documentos ocultos, gravações e o testemunho de uma personagem dada como morta reabrem o caso. A nova investigação, conduzida por Alberto Cardoso e pela promotora Maria Amélia, revela que a Operação Santa Catarina foi apenas a ponta de um esquema mais amplo, relacionado às fraudes nos contratos de construção da mesma usina hidrelétrica que já figurava no primeiro romance.
O centro dramático do enredo desloca-se para o confronto entre Wenceslau Mello, conselheiro do Tribunal de Contas que se tornou político ambicioso, disposto a manipular licitações, chantagear e cometer assédios a partir de sua posição de poder, e Hermes Cavalcanti, juiz dedicado, idealista e rigoroso, que fora seu colega de faculdade e disputara com ele, décadas antes, o afeto da mesma mulher, Ana Júlia. Esse pano de fundo pessoal confere densidade ao antagonismo institucional que estrutura a trama. À medida que a investigação avança, os promotores precisam provar o envolvimento não apenas de Wenceslau, mas de deputados e até do Procurador-Geral de Justiça, contando com o apoio da jornalista investigativa Luana Klein, cujas reportagens pressionam o próprio sistema de justiça a confrontar seus integrantes.
A escalada de violência, marcada pelo assassinato de colaboradores antes de seu depoimento, e a exposição de Alberto a traições e vazamentos de informações confidenciais, elevam o romance ao patamar de thriller jurídico, sem que a obra abandone, em nenhum momento, o rigor técnico na descrição dos procedimentos investigativos. O prefácio desta segunda obra é assinado pelo senador Sérgio Moro, ex-juiz federal da Operação Lava Jato, que destaca o realismo com que Gebran Neto reconstrói o funcionamento das operações policiais e a capacidade da narrativa de reter o leitor até o desfecho.
Em ambos os romances, fica evidente que seu autor é um operador do direito. Os procedimentos investigativos, as etapas processuais e a movimentação dos personagens dentro do sistema de justiça são descritos com uma precisão que ultrapassa a simples verossimilhança buscada pelo gênero.
Gebran Neto, desembargador federal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com trinta e sete anos de carreira jurídica (quatro como promotor de justiça do Ministério Público do Paraná e trinta e três como magistrado federal), entre eles a atuação como um dos relatores dos processos da Operação Lava Jato, transpõe para a ficção um conhecimento técnico que se manifesta na atenção dada aos mecanismos de fraude em licitações, à atuação cartelizada de empresas de engenharia, ao pagamento de propina e à lavagem de dinheiro por meio de estruturas societárias e financeiras sofisticadas.
Essa familiaridade técnica confere às duas narrativas um nível de detalhamento pouco comum na ficção jurídica produzida no Brasil, aproximando-as da tradição consolidada nos Estados Unidos por autores como John Grisham e Scott Turow, gênero que, segundo o próprio autor, permanece ainda pouco explorado no país, apesar de os crimes retratados serem recorrentes nos tribunais brasileiros.
Para além do relato investigativo, os dois romances funcionam como espelho das convicções de seu autor. A trajetória de Catarina Bianchi, que transita entre a cumplicidade com o crime e a tentativa de redenção pela colaboração com a justiça, e a oposição entre Hermes e Wenceslau, que não constrói apenas um antagonismo narrativo, expõem, sem mediações, a visão de mundo de quem passou décadas observando de dentro o funcionamento, e também as fraturas, do sistema de justiça brasileiro.
As concepções de Gebran Neto sobre o papel do Estado de Direito, sobre os limites entre legalidade e impunidade, e sobre a responsabilidade individual diante da corrupção institucional atravessam ambos os textos sem disfarces, o que dá à obra um caráter quase testemunhal, ainda que formalmente inscrita no campo da ficção. O próprio autor reconhece essa proximidade entre experiência profissional e material narrativo, ao afirmar que sua vivência como promotor e magistrado lhe permitiu escrever os romances conhecendo dados da realidade, tanto no que se refere ao funcionamento de investigações e processos judiciais, quanto na descrição de condutas ilícitas observadas ao longo de sua trajetória nos tribunais. Segundo ele, embora as histórias sejam fictícias, os métodos e os fatos narrados não se distanciam muito daqueles que chegaram a julgamento no país, o que transforma o díptico em instrumento de esclarecimento público sobre condutas praticadas no âmbito do poder.
O resultado é um conjunto de romances que se sustenta tanto pela tensão da trama quanto pelo valor documental de sua construção, funcionando como registro literário de uma experiência profissional dedicada, em grande parte, ao enfrentamento da criminalidade de colarinho branco no Brasil. Ao optar pela ficção como veículo para tratar de temas normalmente restritos aos autos processuais, e ao construir uma continuidade narrativa entre os dois volumes, que se retroalimentam em personagens, esquemas e consequências, Gebran Neto amplia o alcance de discussões relevantes sobre corrupção, impunidade e reconstrução institucional, entregando ao leitor uma obra que informa tanto quanto entretém.
