Pequenos reatores nucleares são imprescindíveis para o setor energético no Brasil, diz Alexandre Silveira

Ministro de Minas e Energia defende escala em energia nuclear, conclusão de Angra 3 e parcerias internacionais
Regulation & Investment – Frankfurt 2026

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Da Redação

Pressões por descarbonização, segurança de abastecimento e altos preços de energia colocam a energia nuclear novamente no centro do debate global. Em painel do Regulation & Investment – Frankfurt 2026, organizado pelo Dinter – Diálogos Intercontinentais, autoridades e especialistas discutiram a retomada do setor, destacando os pequenos reatores modulares (SMRs) como aposta tecnológica estratégica.

O painel aconteceu nesta quarta-feira, 4 , na Goethe-Universität Frankfurt am Main, e contou com a participação de Martin Pache, Board Member da KernD, a associação alemã de energia nuclear;  Marcelo Zanatta Estevam, CEO da Âmbar Energia;  e Walter Tromm, do Karlsruher Institut für Technologie. A moderação foi do repórter Hans Joachim von der Burchard, chefe do Berlin Playbook do POLITICO.com Europe.

“Para um país com a dimensão territorial do Brasil, a energia nuclear, especialmente com o advento dos pequenos reatores modulares, deixa de ser apenas importante e passa a ser imprescindível”, afirmou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ao destacar que o país possui a sétima maior reserva de urânio até agora conhecida, considerando que apenas 30% do subsolo foi pesquisado.

Segundo o ministro, a tecnologia permite unidades nucleares instaladas próximas aos centros de consumo ou até em estruturas flutuantes, reduzindo a dependência de longas linhas de transmissão e do transporte de combustíveis fósseis por rios e estradas precárias. “Os pequenos reatores nucleares nos darão, por exemplo, uma possibilidade muito grande de termos energia embarcada”, afirmou. 

Ele mencionou ter visto modelos em operação na China e na Rússia e destacou que a tecnologia pode enfrentar um dos principais gargalos brasileiros: o custo da transmissão em regiões remotas. A substituição de térmicas a diesel por unidades nucleares compactas reduziria emissões e daria previsibilidade a estados na região da Amazônia.

Para Silveira, não se trata apenas de diversificar a matriz, mas de corrigir uma distorção estrutural. O Brasil gasta anualmente cerca de R$ 12 bilhões para subsidiar a geração a diesel nos sistemas isolados da região norte, custo repassado aos consumidores. “É mais caro transportar o óleo diesel para os 171 sistemas isolados, que o próprio combustível consumido nas usinas térmicas da Amazônia”, disse.

A estratégia para avançar na energia nuclear também inclui a recente criação da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, com status de agência reguladora, para ampliar e capacitar profissionais e dar estabilidade regulatória ao setor nuclear.

Geopolítica sem alinhamento automático

Questionado pelo moderador se o Brasil correria o risco de repetir com Rússia ou China uma dependência semelhante à que a Alemanha teve do gás russo, Silveira rejeitou a premissa. Segundo ele, o país não pretende substituir uma dependência por outra, mas ampliar seu leque de parcerias. “Não podemos enxergar as relações internacionais apenas sob a ótica de sanções políticas ou de conflitos. O Brasil não tem esse posicionamento. Temos defendido de forma clara que precisamos de paz e estabilidade energética”, respondeu o ministro. 

Silveira defendeu uma política externa energética baseada em multilateralismo e autonomia estratégica. Afirmou que o Brasil dialoga com todos os pólos relevantes, da Europa à Ásia, e que a atuação internacional não deve ser guiada por ideologias, mas sim por objetivos concretos de segurança e desenvolvimento energético.

Angra 3 e a reestruturação do setor

“Nos envergonha ter Angra 3 pela metade”, disse o ministro ao comentar sobre o projeto iniciado na década de 1980. Ele defendeu a conclusão do projeto, condicionada à modernização das estatais do setor, que precisam ser “mais eficientes, mais céleres”.

A conclusão de Angra 3, no entanto, aparece como etapa intermediária. O objetivo é avançar para uma escala maior de produção nuclear. “Sou convicto dessa necessidade e sou confiante que vamos conseguir avançar uma escala na produção de energia nuclear no país”, afirmou.

Multilateralismo 

Silveira ainda defendeu multilateralismo e cooperação tecnológica, citando acordos com China, Rússia e Europa, além de destacar ótimas perspectivas com o acordo União Europeia–Mercosul.

Porém, para o ministro, a transição energética não pode significar exportação de matéria-prima bruta e importação de tecnologia. A ambição declarada é transformar a energia nuclear em plataforma de desenvolvimento industrial e tecnológico, incluindo medicina nuclear e produção de hidrogênio de baixo carbono.

Padronização e custo como condição de mercado

Martin Pache, da associação nuclear alemã KernD, sustentou no painel que a modularidade dos SMRs é a resposta aos atrasos e estouros de orçamento que marcaram grandes projetos europeus. Segundo ele, a produção em série com um design padronizado é o único caminho para reduzir risco e custo.

Walter Tromm, do Karlsruher Institut für Technologie (KIT) – KIT-Zentrum Energie, destacou a importância da padronização no licenciamento internacional para a expansão dos SMRs. Segundo ele, para que esses pequenos reatores possam ser produzidos em escala e vendidos globalmente, é necessário que haja normas consistentes entre diferentes países. Tromm comparou o processo à indústria de aviação, lembrando que um avião só funciona comercialmente se for aceito em todos os aeroportos.

Sobre a questão do licenciamento, ele explicou que essas pequenas unidades podem ser instaladas em locais já licenciados de antigas usinas nucleares, reduzindo custos e acelerando a disponibilidade de energia. 

Dados e energia 

Marcelo Zanatta Estevam, da Âmbar Energia, reforçou que, no século XXI, os grandes recursos estratégicos não são mais apenas petróleo ou aço, mas energia e dados. Diante da expansão da inteligência artificial, cujos data centers demandarão volumes de energia muito superiores aos sistemas tradicionais, o setor energético brasileiro tem uma oportunidade única para suprir essa demanda crescente.

O executivo apontou que a intermitência das fontes solar e eólica torna a energia de base, como a nuclear, cada vez mais estratégica, e que o Brasil pode se tornar não apenas consumidor, mas também exportador de combustível nuclear. Ele destacou o investimento privado como motor desse desenvolvimento, mencionando a participação da Eletrobras e a construção de Angra 3, além do mapeamento de mais de 40 novos potenciais sítios para usinas nucleares no país. 

Assim como os outros painelistas, Zanatta também enfatizou a combinação de capacidade local com parcerias internacionais, incluindo Alemanha, Estados Unidos, China e França, como crucial para acelerar tecnologia, mineração e produção de energia de forma segura e competitiva.

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