Da Redação
A corporação nuclear russa Rosatom defendeu em Jacarta uma abordagem de cooperação nuclear voltada à criação de cadeias industriais completas em países emergentes, e não apenas à construção de usinas. A mensagem foi apresentada por Alexei Likhachev, diretor-geral da companhia, ao comentar as perspectivas de parceria com a Indonésia em um momento de retomada global do debate sobre energia nuclear, segurança energética e desenvolvimento tecnológico.
O ponto central da fala foi a defesa de uma cooperação nuclear estruturada como projeto de longo prazo. “Não apenas construímos usinas nucleares, não apenas fazemos manutenção e fornecemos combustível. Nós sempre criamos uma indústria inteira”, afirmou Likhachev, ao defender a formação de profissionais, a localização de processos tecnológicos e o envolvimento de fornecedores nacionais nas etapas de construção e operação.
A Indonésia, quarto país mais populoso do mundo, enfrenta uma demanda crescente por eletricidade associada ao avanço econômico e à necessidade de fontes estáveis e de baixa emissão. Segundo Likhachev, o arquipélago planeja alcançar até 500 MW de geração nuclear no início da próxima década, avançar para 7 a 8 GW nos anos 2040 e chegar, nos anos 2060, a um patamar próximo ao da atual capacidade instalada russa, entre 35 e 37 GW. Para isso, segundo ele, o país deverá combinar diferentes soluções, de pequenas centrais e unidades modulares a usinas de grande porte.
As discussões em Jacarta foram desdobramento de um encontro realizado em 13 de abril, em Moscou, entre o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin.
Cooperação
O diretor-geral da Rosatom citou que 60 jovens indonésios já foram formados na Rússia por meio de cotas da companhia, outros 29 seguem em formação e 13 ingressam neste ano. Ele também afirmou que a empresa está disposta a ampliar o número de vagas gratuitas para estudantes daquele país, como parte da estratégia de formação de quadros locais para o setor.
Likhachev mencionou experiências da Rosatom em Belarus, Turquia e Egito, onde empresas locais participaram de até 30% a 40% dos trabalhos em diferentes fases de construção. Segundo ele, esse modelo permite que fornecedores locais não apenas atuem em projetos domésticos, mas também adquiram competências para participar de outros empreendimentos internacionais.
A fala ocorre em um contexto em que a energia nuclear voltou a ganhar espaço nas discussões sobre segurança energética, transição de baixo carbono e soberania tecnológica. No Brasil, o tema tem sido tratado como parte da agenda estratégica do setor energético e industrial. O Ministério de Minas e Energia (MME) também discute o fortalecimento da cadeia nuclear brasileira, incluindo mineração de urânio, geração elétrica e avaliação futura de pequenos reatores nucleares.
Soberania
Para Likhachev, uma das tendências centrais do mercado nuclear é a valorização de fontes capazes de oferecer geração estável por longos períodos. “Considerando os desafios que existem hoje na energia mundial e nos conflitos regionais, possuir uma fonte de energia própria, localizada e potente, com ciclo de vida de até 100 anos, é parte da soberania. Não é apenas parte da capacidade energética. Já é parte da soberania tecnológica e da soberania energética”, afirmou.
Outra tendência, segundo ele, é a necessidade de soluções ajustadas à demanda de cada país. Alguns mercados precisarão de pequenos reatores modulares, outros de blocos de grande porte, e outros ainda poderão demandar fontes móveis, como usinas nucleares flutuantes. No caso da Indonésia, Likhachev afirmou que esse avanço poderia ocorrer em etapas, partindo de soluções menores até chegar a usinas de maior capacidade.
O executivo também destacou o papel da ciência nuclear e de tecnologias de próxima geração, incluindo reatores de quarta geração, fechamento do ciclo do combustível e redução do impacto ambiental associado ao combustível nuclear usado. Ele afirma que o futuro do mercado nuclear será definido pela capacidade de oferecer pacotes completos, que incluam formação, pesquisa, financiamento, localização, tecnologia e gestão de longo prazo.
No Brasil, a discussão sobre pequenos e microrreatores modulares ganhou impulso em 2026, com a instalação, pelo MME, de um grupo de trabalho voltado à infraestrutura nacional para reatores nucleares de potência.
A posição defendida pela Rosatom em Jacarta reforça uma disputa que vai além da venda de tecnologia. Para países emergentes, a energia nuclear passou a ser discutida como instrumento de desenvolvimento, formação de mão de obra qualificada, diversificação da matriz energética e inserção em cadeias industriais de alto valor agregado.
