Da Redação
O acirramento das tensões geopolíticas, a emergência climática e a transição para fontes de energia de baixo carbono estão forçando uma reorganização profunda das cadeias logísticas globais. Para mitigar riscos e atrair capitais em um cenário de elevada volatilidade, é imprescindível investir na multimodalidade do transporte, na segurança jurídica para o investidor privado e na formação de capital humano. Esses foram os temas do debate sobre cadeias globais de logística, que abriu o segundo dia do Regulation & Investment, organizado pelo Dinter – Diálogos Intercontinentais, em parceria com a Goethe-Universität Frankfurt am Main, na Alemanha, nesta terça-feira, 3.
O painel contou com a participação de Tarcísio de Freitas, governador do Estado de São Paulo e ex-ministro da Infraestrutura do Brasil; Alexandre Luiz Ramos, ministro do Tribunal Superior do Trabalho do Brasil; Vander Costa, presidente da Confederação Nacional do Transporte do Brasil; Gustavo Gardini, diretor de Parcerias Globais do Grupo DB E.C.O., Deutsche Bahn; e Darius Maleki, vice-presidente do Caspian Europe Forum. A moderação foi de Joachim von Winning, diretor de Parcerias de Carga do Aeroporto de Frankfurt e presidente da Associação Federal Alemã de Logística (BVL).
A premissa dominante do debate é que a logística deixou de ser apenas a gestão de armazenamento e distribuição de produtos para assumir uma função estratégica na segurança nacional e na soberania econômica. O modelo que priorizava produzir em mercados com menor custo, como a China, independentemente da distância, revelou sua fragilidade durante a pandemia e os recentes conflitos internacionais.
Agora, busca-se estabelecer cadeias produtivas em nações aliadas, reforçando a importância de ambientes regulatórios robustos e previsíveis. Nesse panorama, o Brasil desponta como um parceiro “confiável”, nas palavras de Tarcísio de Freitas, por seu potencial em energia limpa, segurança alimentar e disponibilidade de minerais críticos.
Segundo o governador, as constantes transformações no mundo e a incerteza acerca do fornecimento global de insumos evidenciam a necessidade de adaptação das operações logísticas e do fortalecimento da infraestrutura interna.“Não adianta eu trazer tecnologia, não adianta eu trazer inteligência artificial, não adianta até abordar sustentabilidade se a nossa infraestrutura for ruim”, afirmou.
O governador apontou também tendências centrais para essa nova fase da infraestrutura e logística, como o uso da inteligência artificial como “cérebro da operação”. “Saímos da ideia do armazém para a smart warehouse”, disse. Outras tendências citadas pelo governador foram a necessidade de maior transparência e rastreabilidade de encomendas para o consumidor e a valorização crescente da sustentabilidade nas cadeias.
Os participantes do painel concordam que a qualificação e a valorização do capital humano são elementos vitais da infraestrutura. Alexandre Luiz Ramos observou que o atual modelo brasileiro de proteção social pode, de certa forma, desestimular o ingresso no mercado de trabalho formal, contribuindo para um “apagão de mão de obra” em setores críticos, como o transporte. Ramos defendeu um modelo de “desmame” gradativo e a longo prazo dos benefícios para incentivar a inserção produtiva, sem risco imediato para os trabalhadores. Ele ainda alertou para o custo do excesso de burocracia e para os problemas de “sobreposição de órgãos reguladores e fiscalizadores”, fazendo com que a falta de coesão institucional do Estado prejudique a eficiência e a segurança jurídica.
Vander Costa reiterou a urgência de uma visão multimodal para o Brasil, capaz de explorar o imenso potencial hidroviário do país, que, além de mais econômico para escoamento de safras, gera menor impacto ambiental em comparação com as rodovias. “Se nós estamos falando em descarbonização, usar a hidrovia é a forma mais inteligente”, disse o presidente da CNT, ao ressaltar a dificuldade em obter licenças ambientais, que muitas vezes ignoram o “conjunto da obra”.
O investimento em corredores que integrem infraestrutura física e digital surge como estratégia para aumentar a resiliência logística em um cenário de instabilidade geopolítica. Gustavo Gardini destacou que projetos multimodais reduzem a incidência de roubos de carga, diminuem o custo de seguros e ampliam fontes de receita, por meio da exploração de real estate em terminais e estações. O executivo citou os projetos ferroviários em curso no Egito como exemplo de modelo bem-sucedido, ressaltando que uma diretriz política clara e coordenada é condição essencial para gerar segurança e atrair investidores internacionais.
As perturbações nas parcerias globais não afetam apenas os canais de distribuição física, mas abalam o alicerce financeiro das empresas de logística. Darius Maleki pontuou que o mercado atual está prejudicado por financiamentos caros e pela “quebra do entendimento europeu”, que frequentemente isola parceiros de negócios baseando-se unicamente em suas aproximações geopolíticas. Para ele, é preciso construir narrativas em que, em vez de “inimigos”, países com posturas complexas sejam vistos como mercados onde a cooperação ainda é possível, embora desafiadora.
A estruturação de novos acordos e infraestruturas, como a potencial efetivação do tratado União Europeia-Mercosul, foi apontada como um indutor de segurança e de novas dinâmicas. O desenvolvimento de um ecossistema sustentável no longo prazo depende de que a colaboração e a regulamentação avancem lado a lado. Caso as nações persistam em um isolamento regulatório ou não consigam traduzir inovações tecnológicas em benefícios estruturais de forma ordenada, a integração global pode ficar estagnada frente a uma cadeia de eventos geopolíticos imprevisíveis.
